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Jojo Moyes: “Sonhava ver o meu nome na lombada de um livro”

Foi telefonista, trabalhou numa agência de viagens, escreveu textos em ‘braille’ e após dez anos no jornalismo tornou-se uma das mais bem-sucedidas romancistas britânicas.

Em casa de Jojo Moyes existe um caderno antigo repleto de longas histórias sobre meninas que se atrevem a enfrentar criminosos e de bandas desenhadas que ela própria escrevia e ilustrava quando era criança. Passaram os tempos de infância, mas não a vontade de poder “traduzir o mundo em palavras”.

Sentada à mesa de um restaurante em Lisboa, a escritora britânica estica os dedos, um a um, enquanto enumera o nome dos países onde os seus livros já foram traduzidos. São mais de treze, e Portugal é um deles. Dizendo-se “deliciada” com a gastronomia portuguesa, responde às perguntas do DN entre garfadas e sorrisos amáveis. Distinguida em 2004 e em 2011 com o galardão britânico Romance do Ano, a ex-jornalista do The Independent descreve, num tom sereno, o momento em que soube que ia conseguir publicar o seu primeiro romance, após três tentativas mal-sucedidas. “Em Inglaterra há leilões, via telefone, em que as editoras fazem ofertas para a publicação dos livros. E se antes ninguém queria publicar-me, de repente apareceram seis editoras interessadas no romance Retrato de Família. Estava na redacção, em 2002, quando a minha agente ligou e disse para me sentar. Eu estava muito grávida.”

Jojo costumava dizer que ficava feliz se o livro lhe desse dinheiro suficiente para arranjar a banheira lá de casa. A certa altura, a agente diz-lhe ao telefone: “Acho que vamos arranjar a tua banheira.” As ofertas continuavam a subir, até que atingiram um valor que lhe permitiria dedicar-se à escrita a tempo inteiro. Desfez-se em lágrimas. Na redacção do The Independent, a colega ao seu lado também chorava. Era quase altura do Natal, e um editor que não sabia de nada disse-lhe: “Pára de chorar, quero um texto de 500 palavras sobre como rechear um peru.” “E eu escrevi a história do peru, enquanto ao telefone a agente me dizia: ‘O valor subiu, subiu outra vez.'” Desde essa altura, Jojo já publicou mais sete romances.

Mãe de três filhos, sobra-lhe pouco tempo para a vida social. Há muito que deixou a confusão de Londres, onde nasceu em 1969, para se refugiar com a família numa quinta a Nordeste da capital. É lá que muitas vezes passeia a cavalo com a filha de 13 anos. Confessa que nem sempre é fácil gerir trabalho e família. O marido, jornalista, tem um horário complicado.

Enquanto prova os tradicionais fios de ovos, à sobremesa, Jojo explica que teve “alguns trabalhos maus” antes de chegar ao Independent: “Fui telefonista de uma empresa de taxis, trabalhei num banco a escrever cartas em braille e para uma agência de viagens com má fama no país.”

Conseguia imaginar que os seus livros alcançariam tanto sucesso? “Como escrevi três romances que não consegui publicar, o meu sonho era simplesmente ver o meu nome na lombada de um livro.”

O sonho tornou-se realidade, mas Jojo não esconde que consegue ser muito pessimista. “Tenho de saber o que fazer no pior cenário possível. Sou a pessoa que entra no hotel e verifica onde são as saídas de emergência. Sou catastrofista.” Ainda assim, não se imagina a fazer qualquer outra coisa além de escrever.

Há dois anos, as editoras estavam com problemas financeiros. Ficou insegura, começou a pensar no que faria se perdesse o seu contrato. Um dia, viu uma mulher polícia a cavalo e pensou: “Este podia ser um trabalho interessante para mim.” Logo a seguir teve uma ideia: “Podia escrever um bom livro sobre uma mulher polícia.” Acaba por associar todas as ideias a um livro. É a rir que diz: “Estou condenada.”´

Jojo Moyes esteve na Feira do Livro de Lisboa para apresentar o seu romance ‘Retrato de Família’

“Sonho com o livro e falo com as personagens durante o sono”

 Jojo Moyes esteve na Feira do Livro de Lisboa para apresentar o seu romance Retrato de Família, onde cabem duas histórias de amor, em duas gerações diferentes. Uma nos anos 60 e outra nos tempos modernos. Apesar de não bloquear enquanto escreve, nem sempre o trabalho de Jojo se revela fácil. Normalmente, escreve de Setembro a Julho. Em Outubro anda pela casa a dizer que não terá tempo de acabar o livro, quando “ainda nem começou”. Em Novembro tem 20 mil palavras escritas e diz: “Isto não vai resultar, não sei o que fazer.” A partir de Janeiro, está “muito empenhada”, mas continua a dizer: “Não sei porque comecei este livro, mas já não tenho tempo de escrever outro.” Em Abril, o discurso já mudou: “Adoro o livro, digo ao meu marido que não posso falar com ele porque quero escrever.” Sonho com o livro, falo com as personagens durante o sono.” Depois, reescreve uma parte em Junho e entrega. Aí, diz que se sente triste: “O meu livro desapareceu.”

[Publicado no DN a 14 de Maio de 2011]

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Jostein Gaarder: “Tornei-me famoso por afirmar: o mundo existe”

De uma janela do hotel, Jostein Gaarder vê uma Lisboa cinzenta. Inconformado, o escritor norueguês procura o sol na previsão do tempo que lhe aparece no telemóvel. Digo-lhe para ter esperança. “Sim, mas também tenho de ser realista”

“Certas pessoas ficam aborrecidas por lhes recordarem que existem.” É o que diz Solrun, uma das personagens de O Castelo dos Pirenéus, que vem apresentar na Feira do Livro. Numa altura em que as pessoas andam sempre tão ocupadas, há quem esteja disponível para pensar sobre as questões que levanta neste romance?

Quando tinha 11 anos, lembro-me de perguntar aos meus pais e professores: “Não acham que é estranho que o mundo exista?” Eles diziam: “Não, nem por isso.” Deviam achar-me louco ou algo assim. Pode dizer-se que me tornei mundialmente famoso por afirmar: “O mundo existe.” Por lembrar as pessoas da experiência mais óbvia que temos em comum. Nascemos curiosos, mas à medida que vamos crescendo, começamos a olhar a vida como um hábito. Esquecemo-nos de questionar. Às vezes precisamos de nos tornar avós ou de ficarmos doentes para voltar a questionar as coisas.

A maneira como olhamos o mundo é totalmente influenciada pela educação que recebemos?

Cresci rodeado de muitos livros. Os meus pais liam-me contos populares e livros para crianças. Isso foi muito importante, mas houve em mim uma espécie de ignição, uma experiência especial. Quando ia com os meus amigos no caminho para a escola, perguntava-lhes também: “Não acham estranho que vivamos?” Eles diziam que não. Falavam sobre o Gagarin e jogavam futebol. Sentia-me um outsider. Desde criança que me habituei a caminhar pela floresta, fora da cidade, durante horas, sem encontrar uma única pessoa.

Neste livro existe um diálogo constante entre razão e fé, ciência e religião. Sendo um racionalista, foi difícil construir uma personagem com um lado espiritual?

Foi uma necessidade. Quando comecei a escrever pensava da mesma forma que [a personagem] Steinn, baseando-me na razão. Mas quando comecei a moldar a Solrun, a escrever a sua história, comecei a ouvi-la. Este livro é um encontro entre uma forma espiritual de olhar a vida e uma outra mais científica. Um encontro que começou a transformar-se num diálogo dentro da minha própria mente. Estou mais aberto a possíveis dimensões sobrenaturais do que antes.

Cria laços emocionais com as suas personagens ou elas são apenas um veículo para transmitir aos leitores aquilo que gostaria de lhes ensinar pessoalmente?

Ambos. Não posso dizer que me deixei levar pelos personagens quando escrevi O Mundo de Sofia. Elas estão lá como simples instrumentos para apresentar aspectos filosóficos. Noutros livros, como O Inigma e o Espelho, existe uma rapariga que sofre de leucemia e que, no final do livro, está a morrer. Sinto-me muito apegado a ela. Em O Castelo dos Pirenéus, consigo identificar-me com os pontos de vista de Steinn, mas sinto que a mulher tem mais impacto em mim enquanto ser humano. Há muitas semelhanças entre a vida daquele casal e a minha e da minha mulher.

Sei que quando eram novos tinham uma reprodução do quadro de Magritte que deu nome a este livro na parede do quarto…

Sim, tínhamos um poster. É uma pintura que retrata o impossível, com uma enorme rocha a flutuar no espaço.

Inspirou-o?

Sim, há muita coisa que vou buscar à minha vida nos anos 70. Eu e a minha mulher agíamos de forma muito semelhante à de Solrun e Steinn. Podíamos ser nós a guiar aquele Volkswagen vermelho pelas montanhas.

Tinha um Volkswagen vermelho?

Tínhamos um Fiat vermelho. A grande diferença é que depois de cinco anos apaixonados, eles separam-se por terem uma interpretação completamente diferente de uma experiência que viveram. Quando voltam a encontrar-se, exactamente no mesmo sítio onde viveram essa experiência, a história de amor recomeça.

Acredita que poderiam ter estado apaixonados durante os 30 anos em que não se viram?

Um deles diz que é como se tivessem comunicado, telepaticamente, durante aquele tempo. Eu tenho amigos que já não estão vivos e às vezes falo com eles. Não com a minha a voz, mas…. 

Jostein Gaarder, autor de 'O Mundo de Sofia'

Foi professor de Filosofia durante muitos anos. Ser escritor é uma continuação desse trabalho?

De certa maneira continuo a considerar-me um professor. Depois de escrever O Mistério do Jogo das Paciências, o meu primeiro grande sucesso, ganhei prémios e pensei tornar-me escritor a tempo inteiro. Foi por isso que escrevi O Mundo de Sofia, baseando-me na minha experiência a ensinar jovens. Não podia desperdiçar isso, e senti que era um dever escrever esta obra. Disse à minha mulher: “Estou a escrever um livro que, provavelmente, não nos dará dinheiro nenhum.” Ela disse: “Então escreve-o rápido.” E escrevi. Em três meses, durante 15 horas por dia. O meu editor na Noruega hesitou em publicá-lo porque é um livro híbrido. É sobre filosofia, mas, ainda assim, um romance. Na altura, escrevi um cartão à editora a agradecer por publicarem um livro por razões culturais (risos). Não tardou muito até serem eles a agradecer.

Não se sente perseguido pelo sucesso d’ O Mundo de Sofia?

Já pensei dessa maneira, mas não posso queixar-me. A Sofia abriu-me a porta para a publicação de outros livros, meus e de outros autores escandinavos. Nos EUA deixaram de rejeitar os livros só por serem noruegueses.

Depois de ter começado a escrever, sentiu que era um dever continuar a fazê-lo?

Depois de publicar um livro de grande sucesso, há quem tenha medo de escrever coisas novas. Temos medo de competir connosco próprios. Para ser honesto, sinto que a minha missão como escritor foi cumprida. Mas há um livro que sinto que tenho de escrever. É sobre um tema muito sério: o aquecimento global.

Preocupa-se com o planeta…

Estou preocupado com a civilização. Temos pensado em formas de proteger a natureza, mas agora trata-se de perceber como irá a civilização sobreviver após termos destruído tanto. Mas não sou pessimista. Pessimismo é sinónimo de preguiça. Ser pessimista é mostrar que não queremos responsabilidades. Ser optimista implica lutar. Há uma palavra entre optimismo e pessimismo: esperança. E a esperança pode ser associada a uma posição lutadora.

Faço-lhe uma questão que coloca no seu livro: imagine que tem dois botões na mesa à sua frente. Se carregar num deles pode viver até aos cem anos, mas toda a humanidade morrerá nessa altura. Se carregar no outro, morre imediatamente, mas a civilização continuará a existir para sempre. Qual deles escolhe?

Juro que não hesitaria: escolheria morrer imediatamente.

[Entrevista publicada no DN a 7 de Maio de 2011]

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A arte em palcos de calçada portuguesa

Edivon Messias, homem estátua na Rua Augusta (Foto: Gonçalo Villaverde)

Não têm de esperar que as luzes se apaguem e o pano suba. O seu palco são  as ruas da cidade. 

Quem ouve Francis a conversar no seu português desenrascado não pode imaginar que este francês de 38 anos está em Portugal há apenas três meses.Com uma colher de sopa na mão, sentado num café da Rua Augusta na sua hora de almoço, vai explicando como é que um mestre em etnologia pela Universidade de Paris vem para Portugal trabalhar como homem-estátua. Deixando escapar algumas palavras italianas e francesas, Francis Rigal conta que depois de ter estado dez anos a morar em Itália apeteceu-lhe mudar de cidade. Mas não podia ser uma cidade qualquer. Tinha de ser uma cidade cultural, algures na Europa e onde pudesse ter um apartamento grande para viver com a mulher e a filha.

Esforçando-se por se fazer entender, decide dar um exemplo. “É como quando temos um programa de computador: inserimos todos os dados que desejamos e up… apareceu Lisboa!”

A época natalícia traz às ruas da Baixa da cidade a azáfama das compras de Natal, mas também um espírito mais aberto para apreciar a animação de rua. Multiplicam-se os malabaristas, palhaços, músicos e coloridas bolas de sabão gigantes que os mais pequenos se esforçam por rebentar.

Francis não tem um disfarce, diz que é “neutro”. Pode ser quem quiser. Veste-se todo de branco, a cara pintada de branco e um chapéu da mesma cor. Às vezes tem uns pratinhos nas mãos. “Bom, sou uma pessoa com pratinhos.”

Em cima de dois banquitos, Francis equilibra-se em posições complicadas. Quando uma moeda cai à sua frente, demora ainda uns segundos antes de mudar de posição em sinal de agradecimento. A assistência sorri, deliciada.

“Trabalhar na rua é belo. Como se diz?”, pergunta, numa tentativa de encontrar a palavra certa. “É bonito. Porque a vida é na rua.”

Francis nasceu em Madrid, mas toda a sua família é francesa. Viveu em Paris até aos 27 anos e foi nessa altura que, “por acaso”, se mudou para Bolonha, em Itália, onde teve vários trabalhos. “Cheguei a trabalhar como etnólogo e também fiz muito trabalho de voluntariado em associações culturais.” A ideia de trabalhar como estátua surgiu há dez anos, depois de ter visto alguém na rua a fazer o mesmo. Mas este mestre em etnologia, um ramo da antropologia, quer apostar também na carreira académica e já está a preparar um doutoramento.

Quem também nunca se esquece de pensar no futuro é Edivon, que, alguns dias por semana, carrega o céu às costas no início da Rua Augusta, junto ao Rossio. Edivon Messias anima as ruas lisboetas desde que deixou o Brasil em 2008, não só para “procurar uma vida melhor, mas também pela aventura”. É um homem-estátua com vários disfarces – cavaleiro medieval, soldado espartano, bombeiro -, mas muitas vezes prefere ser Atlas, o titã grego que Zeus condenou a sustentar o céu nos ombros para sempre. Mas é com os pés bem assentes na terra que Edivon fala sobre os seus planos. O que quer mesmo é ir para a faculdade estudar educação física: “Isto é uma coisa de momento, não dá futuro para ninguém. A gente tem de ver o amanhã também. Talvez eu veja as pessoas pedindo esmola e dormindo na rua e penso em mim. Eu não sei: amanhã posso estar aí também. Não julgo essas pessoas que estão na rua, mas eu estou tentar a juntar o meu pé de meia.”

Quando não está a trabalhar nas ruas, viaja por feiras em Portugal e Espanha e diz que o mais difícil deste trabalho “acaba por ser mesmo o preconceito”. “Nem todas as pessoas têm, mas existe. Eu já nem ligo. Alguns, poucos, chateiam. Jogam pedras. Gritam : ‘vai trabalhar!’. Não entendem. Mas eu nem levo isso a sério.”

Sério é o projecto que Evandro Cabral está desenvolver para apoiar crianças carenciadas. Este saxofonista de 38 anos só sai para tocar nas ruas da baixa lisboeta na época natalícia. Diz que o faz por gosto e porque foi nas ruas e no metro que começou a trabalhar quando chegou a Portugal, também ele vindo do Brasil, há dez anos. O Projecto Reciclo Orquestra, que este antigo músico da orquestra sinfónica de São Paulo está a lançar no bairro da Encarnação, é apoiado pela Junta de Freguesia de Santa Maria dos Olivais e relaciona-se com reciclagem de materiais para fazer instrumentos musicais. “Vamos dar formação musical a pessoas carenciadas, utilizando os instrumentos que eles próprios vão fazer. Flautas, tambores, enfim”, explica Evandro, que segura um instrumento musical a que chamou “cenourofone”. Ou, como diz a sua filha pequena, uma “saxocenoura”.

O verdadeiro saxofone dourado com o qual dá concertos está guardado na mala. Na rua, Evandro costuma tocar instrumentos que ele próprio fabrica a partir de legumes. Diz que com estes consegue chamar a atenção dos comerciantes do seu bairro e angariar mais apoios para o seu projecto.

Quem passa e vê Evandro a tocar ficava espantado. O som parece o de um instrumento de sopro normal, mas, afinal, sai de uma cenoura com furinhos onde está encaixado um funil de plástico. “Quando a cenoura começa a ficar estragada, tenho outra esperando no frigorífico”, diz Evandro, entre risos. Também tem flautas feitas com pepinos ou outros instrumentos feitos a partir de peras ou de mandioca.

O músico, que tem ainda um projecto de fado chamado Próxima Paragem, em que a voz da fadista é substituída pelo som do seu saxofone, confessa que já não toca nas ruas para ganhar a vida, mas porque é algo que lhe dá prazer.

É também essa a razão pela qual Nuno Lamego, de 35 anos, trabalha desde os 16 como artista de rua. Gosta daquilo que faz. Junto aos Armazéns do Chiado, acompanhado pela pequena Honey Badger, uma cadela que, tal como ele, nasceu em Moçambique, este “malabarista em part-time” vai mantendo no ar as chamadas massas de malabarismo. “Ou bolas, por vezes trago bolas e também faço malabarismo de contacto, explica Nuno enquanto tenta manter Honey Badger por perto. Mas a verdadeira paixão deste artista de rua é a joalharia.

“Monto uma bancada a partir de uma mala e faço joalharia ao vivo. Nunca vi mais ninguém a fazer isso por aqui. Quando não posso, por causa da polícia, faço malabarismo, que geralmente é um bocadinho mais tolerado.”

Queixando-se da dificuldade que os artistas enfrentam para conseguir licenças, Nuno lamenta não poder vender as suas peças à vontade, por ter “medo que levem o material”. Ainda assim, este “caçador de destroços”, nome do seu projecto de jóias, não desiste: sonha abrir uma loja. Por enquanto, a rua continua a ser o seu único palco.

[Reportagem publicada no Diário de Notícias a 18 de Dezembro de 2010]

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Modernidade já fala árabe

Sheikha Mozah al-Missned do Qatar

É uma das três mulheres do Emir do Qatar, mas só ela tem direito a aparecer publicamente ao lado do marido. Membro da comissão que vai organizar o Mundial de futebol de 2022, Mozah é sinónimo de modernidade no mundo árabe

Quando em 2003 Mozah al-Missned apareceu ao lado do marido numa entrevista transmitida pela televisão estatal, o Qatar ficou em estado de choque. Nunca antes a mulher de um dos seus líderes tinha aparecido em público.

 Passaram sete anos. E se até aqui os mais distraídos não tinham ainda reparado em Sua Alteza Mozah, uma das mais mulheres mais influentes do mundo árabe, finalmente foram obrigados a fazê-lo quando há uma semana foi anunciado que será o seu pequeno país a organizar o Mundial de futebol em 2022.

Durante a cerimónia da FIFA em Zurique, sem dispensar a elegância que lhe tem valido rasgados elogios em todos os países por onde passa, Mozah foi o centro das atenções com o seu discurso de agradecimento.

A fortuna do marido, avaliada em dois mil milhões de dólares sem contar com um astronómico fundo soberano, permite-lhe encher o seu guarda-roupa de peças Chanel, Jean Paul Gaultier, Givenchy, Valentino e de colecções inteiras de sapatos de Christian Louboutin.

 À primeira vista, Mozah, uma das três mulheres do Emir Khalifa al- -Thani e mãe de sete filhos, poderia parecer só mais uma barbie árabe com jeito para esbanjar os petrodólares do marido. Mas a sua inteligência, aliada a um espírito de iniciativa incansável, têm ajudado a projectar o Qatar aos olhos do mundo como um país que aposta no desenvolvimento do sistema educativo, na saúde e na investigação científica.

A educação das jovens, pouco encorajada ou mesmo evitada em boa parte dos países árabes, é uma das principais preocupações da monarca. “Devemos ser leais às tradições islâmicas, insistindo na aplicação da igualdade garantida pela nossa religião e providenciando um ambiente próprio para que as jovens possam crescer e prosperar”, explicou em 2006 durante uma conferência em Doha, capital do Qatar, onde 70% dos estudantes universitários são mulheres. Ao contrário de outros países islâmicos, sobretudo no golfo Pérsico, no Qatar as mulheres são autorizadas a conduzir e a trabalhar fora de casa. Ainda assim, o regime autoritário do Emir continua a despertar preocupações entre organizações de defesa dos direitos humanos.

Com apenas 18 anos, antes de ter terminado a sua licenciatura em Sociologia, Mozah recebeu uma proposta de casamento: o herdeiro do trono estava interessado em ter uma segunda mulher e tinha sido ela a escolhida. Em 1977, a menina que nasceu na cidade de Al Khor, no Norte do país, recebeu o título de sheikha e durante anos permaneceu no anonimato. Após a sua primeira aparição pública, que muitos dizem ter sido uma jogada de mestre dos governantes do país, Mozah, que em 2007 foi nomeada pela revista Forbes como uma das mulheres mais influentes do mundo, começou rapidamente a transformar-se numa importante imagem de marca do país. Até aí, era a cadeia de televisão Al-Jazeera que desempenhava esse papel.

Embaixadora especial da UNESCO para a educação básica e superior, Mozah apoia inúmeros projectos educativos um pouco por todo o mundo e convenceu o marido a doar 15 milhões de dólares (11 milhões de euros) para a reconstrução de universidades no Iraque.

Para esta mulher de 51 anos, que tem conseguido aliar uma postura moderna ao respeito pelas tradições, a organização do Mundial é uma oportunidade única para todo o mundo árabe de corrigir “os mal-entendidos que prevalecem no Ocidente” sobre os países islâmicos.

[Publicado no Diário de Notícias a 11 de Dezembro de 2010]

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O regresso de ‘Rahmbo’ à cidade de Al capone

Rahm Emanuel com Obama

Até há pouco tempo, era o braço-direito de Obama. Agora, prepara-se para se candidatar à Câmara de Chicago, cidade onde nasceu

Um peixe morto embrulhado num jornal de Chicago. Foi este o presente de despedida que Rahm Emanuel recebeu quando na semana passada deixou a Casa Branca. Ninguém se surpreendeu com a brincadeira. Há uns anos, o antigo chefe de gabinete de Barack Obama e agora candidato a presidente da câmara de Chicago enviou, irritado, um peixe em decomposição a um analista de sondagens. Quem viu O Padrinho recordou uma das cenas do filme de Francis Ford Coppola e percebeu a intenção. Era uma ameaça. Neste caso, não de morte: ou a pessoa em questão saía do caminho de Rahm ou arriscava–se a ver a sua carreira a afundar-se no oceano.

A postura intimidatória deste democrata de 50 anos tem-lhe valido ao longo da carreira várias alcunhas pouco simpáticas, como “Pitbull” – diziam que era o cão de ataque de Barack Obama -, ou “Rahmbo”.

Quando em Janeiro de 2009 Emanuel se instalou no escritório reservado para o chefe de gabinete da Casa Branca, levou consigo uma lista telefónica pessoal com seis mil números que fez bloquear o sistema informático. Tratava quase todos os jornalistas por tu e fazia questão de manter boas relações com congressistas e donos de empresas.

Quem trabalha com ele sabe que tem de estar preparado para tudo. Para estar sob as ordens de uma pessoa que não consegue estar parada e usa vocabulário politicamente incorrecto em praticamente todas as frases. Caso o antigo braço direito de Obama suba ao poder em Chicago, a cidade onde nasceu, há uma dica de um antigo director do comité de campanha democrata (onde Emanuel trabalhou entre 2005 e 2007) que pode dar jeito a todos os que venham a integrar a sua equipa: “Desenvolver uma pele grossa, cancelar férias, casamentos e todos os compromissos pessoais. Aprender o que significa 25/8: estar disponível 25 horas por dia, oito dias por semana.”

Mas na cidade que ficará para sempre associada ao mafioso Al Capone, há quem tenha dúvidas da legitimidade da candidatura deste pai de três filhos. No estado do Illinois, ao qual Chicago pertence, a lei obriga a que os candidatos vivam há pelo menos um ano na cidade onde querem ser presidentes.

Emanuel, que até agora vivia em Washington, tem uma casa em Chicago, mas está alugada há dois anos e o inquilino recusa-se a sair por questões familiares. Mas este membro da ala centrista do Partido Democrata deverá resolver o problema, alegando que a sua intenção sempre foi manter em Chicago a sua residência permanente.

Como chefe de gabinete, Emanuel ocupava o segundo cargo mais importante na Casa Branca. Entre outras tarefas, estava encarregado de escolher e supervisionar todos os funcionários, de definir a agenda e aconselhar o Presidente ou ainda de negociar com o Congresso. No passado dia 1, quando Barack Obama anunciou o afastamento de Emanuel, definiu-o como o “solucionador a tempo inteiro de todos os problemas da Casa Branca”.

Filho de um pediatra judeu de Jerusalém e de uma psiquiatra americana, entrou na política como angariador de fundos para diversas campanhas dos democratas e tornou-se um dos mais importantes conselheiros de Bill Clinton, entre 1993 e 1999. “Ascensão meteórica” é uma expressão que dificilmente chegará para descrever o percurso político deste antigo bailarino. Emanuel, que teve aulas de ballet clássico até acabar o ensino secundário, serviu de inspiração para a criação do personagem Josh Lyman, vice-chefe de gabinete da Casa Branca na famosa série The West Wing (Os Homens do Presidente, em português). Mas a vida de Emanuel não foi a única a inspirar um filme. O seu irmão Ariel Emanuel, um agente milionário de estrelas de Hollywood, inspirou a criação de Ari Gold, personagem da série Entourage. Se ainda restassem dúvidas de que este antigo senador nasceu numa família incrivelmente bem-sucedida, bastaria acrescentar que o mais velho dos três irmãos, Ezekiel, é oncologista e um dos nomes sonantes da biotética norte-americana.

[Publicado a 8 de Outubro no Diário de Notícias]

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Santa Helena abre as portas ao mundo

O território é um dos locais mais isolados do globo e integra a lista de 14 dependências governadas pela coroa britânica. Aeroporto vai atrair turistas e diminuir a dependência económica de uma ilha que custa 20 milhões de libras anuais ao Governo de Londres

Na era do pós-modernismo, dos transportes de alta velocidade e da proliferação estonteante das redes de comunicação, há quem possa, sem grande dificuldade, tomar o pequeno-almoço em Lisboa, almoçar em Londres e terminar o dia a jantar em Nova Iorque. Mas, na ilha de Santa Helena, no Sudoeste do Atlântico, há quatro mil pessoas que nem sonham com tal liberdade de movimentação pelo globo.

Foi nesta ilha que Napoleão Bonaparte esteve exilado entre 1815 e 1821 (o ano da sua morte), por se tratar de um local de onde seria impossível fugir. Uma realidade que vai agora ser alterada.

Confinados a um território de 122 quilómetros quadrados, os habitantes desta dependência da coroa britânica estão rodeados por água num raio de mil quilómetros, sendo a ilha da Ascensão o território mais próximo.

Para se avistar um continente é preciso viajar mais de dois mil quilómetros de barco. Num barco apenas. O Royal Mail Ship é o único meio de transporte que liga a ilha ao resto do mundo e faz cerca de 30 viagens anuais entre a Cidade do Cabo, na África do Sul, e a ilha de Santa Helena, num percurso que tem a duração média de sete dias.

A introdução de um serviço moderno de telecomunicações, com a instalação de rádio, telefone, telex e fax, teve lugar já há alguns anos, mas só em 1995 é que a televisão chegou ao território.

Santa Helena é considerada um dos mais remotos locais do globo. Mas essa condição está prestes a alterar-se. Os conservadores britânicos anunciaram o início da construção de um aeroporto, depois de o projecto ter sido suspenso pelo Governo trabalhista em 2008 por razões de contenção financeira. Quando as obras estiverem concluídas, a ilha, que recebe um financiamento anual de 20 milhões de libras (24 milhões de euros) de Londres, poderá começar a ganhar alguma auto-suficiência.

Um fácil acesso ao território irá expandir significativamente o sector do turismo. Actualmente, Santa Helena, que em 1502 foi descoberta por portugueses e é habitada por descendentes de colonos britânicos, recebe um total de 950 visitantes anuais. O número que poderá crescer até aos 29 mil quando os aviões começarem a aterrar na ilha.

A decisão de avançar com a construção do aeroporto (a ideia data dos anos 60) foi anunciada pelo secretário de Estado britânico para o Desenvolvimento Internacional, Andrew Mitchell, no dia 22 de Julho. Havia urgência em encontrar uma solução, já que os serviços do Royal Mail Ship serão descontinuados este ano.

De acordo com Mitchell, “se não fosse construído um aeroporto, o Governo teria de gastar cerca de 64 milhões de libras (77 milhões de euros) num novo navio”. Para a construção do aeroporto, o Governo aponta para gastos que rondam os cem milhões de euros (120 milhões de euros).

A decisão está a causar tensões na classe política. A oposição trabalhista acusa o Governo de estar a “reembolsar” Lorde Ashcroft, um dos maiores financiadores do Partido Conservador, com este projecto. “Há muitas ilhas remotas no mundo sem aeroportos, mas nenhuma que fique tão perto dos interesses de Lorde Ashcroft na região sudoeste do Atlântico”, afirmou o deputado do Labour Denis McShane, na altura em que foi feito o anúncio. O Governo já rejeitou as acusações.

[Publicado a 1 de Agosto no Diário de Notícias]

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Mitologia dita o tom no festival de Salzburgo

A Praça da Catedral foi o local escolhido para o espectáculo. No palco, os actores davam vida às personagens de Jedermann, uma peça do famoso dramaturgo Hugo von Hofmannsthal. Era dia 22 de Agosto do ano de 1920 e a plateia assistia à primeira edição do Festival de Salzburgo.

O reconhecimento internacional do evento que reúne o melhor da ópera, do teatro e da música clássica não tardou a chegar. Não é difícil perceber porquê. Da lista de fundadores constam nomes como o do compositor Richard Strauss, o do produtor de teatro, Max Reinhardt ou ainda o do maestro Franz Schalk.

De 1934 a 1937, o Salzburger Festpiele (assim se chama em alemão) viveu os seus tempos áureos. Em 1936, recebeu uma actuação da família de cantores Von Trapp, cuja história foi retratada no muito aclamado Música no Coração. Durante a II Guerra Mundial, o evento foi interrompido, mas após a vitória dos Aliados, versos e pautas musicais voltaram a encher as salas de espectáculos de Salzburgo, durante um evento que tem início na última semana de Julho e prolonga-se durante cinco semanas.

“Onde Deus e o homem colidem” é o tema deste ano. A mitologia determinou a escolha de óperas como Electra , de Strauss, Orfeu e Eurídice, de Gluck, ou ainda a criação de Alban Berg, Lulu. Já no teatro, o festival traz a Salzburgo Fedra, uma peça escrita por Jean Racine em 1677 ou Édipo em Colonus, de Sófocles. Mas são quase duzentos os espectáculos que decorrerão até ao fim de Agosto.

No domingo, o festival fez 90 anos e, como manda a tradição, voltou a abrir com a peça de Hofmannsthal, também ele um dos fundadores do mais importante evento cultural da cidade que viu nascer Mozart.

[Publicado a 31 de Julho no Diário de Notícias]

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