Impressões

O Senhor dos Pássaros

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Há seis anos comecei a escrever esta história porque o F. me falou sobre pássaros a propósito de alguma coisa que há muito deixei escapar da minha memória. O título do e-mail que lhe enviei dizia apenas “Conto – Parte 1”. Nunca cheguei a escrever mais nada.

Foi com duas malas cheias de saudade que Josefa partiu para o Brasil. De coração pesado, deixava para trás Adolfo e Alfredo. “Os meus canários, ai os meus ricos canários”, suspirava Josefa de olhos chorosos e lenço amarrotado na mão. Mal a porta a do avião se fechou, abriu-se o caminho para a trágica morte de Adolfo e Alfredo.
Dois dias antes, a viagem até Trás-os-Montes tinha sido longa e dura. Os caminhos de pedra deixavam Josefa às avessas com os seus bicos de papagaio. “Pelos meus meninos qualquer sacifício é pouco”, ia dizendo aos seus botões. Josefa ia ter com o primo que sempre a acudia nas horas de necessidade. A quem mais podia deixar os seus preciosos canários senão a Faustino? O primo da terra saberia com certeza tratar dos seus principezinhos como ninguém.  E assim foi: em Trás-os-Montes ficaram Adolfo e Alfredo sem poderem adivinhar o seu malfadado destino. 
Ora, o primo Faustino, achando-se na posse dos melhores conhecimentos para o tratamento de dois belos canários, decidiu que o melhor seria dar-lhes dois ninhos. “Com este frio ainda me morriam os bichos nas mãos…Ermelindaaaaaa, vá buscar palha. Temos de fazer feliz a minha rica prima!”.Dito e feito. Os ninhos postos, a morte anunciada. 
Alfredo e Adolfo acomodaram-se felizes, mas a pouca sorte estava só à espera de uma oportunidade e a portinhola que separava os ninhos do resto da gaiola fechou-se com um sopro de azar. Sem sustento que os mantivesse longe do outro mundo, Adolfo e Alfredo despediram-se da vida terrena. 
“Ai minha rica prima, minha rica prima”, gritava Faustino desesperado. “Que vou eu fazer agora?” 
Na madrugada do dia seguinte, o plano de reposição de Adolfo e Alfredo estava em marcha. Passo apressado e coração aos saltos, Faustino entrou no mercadinho da passarada. Saltitou de vendedor em vendedor e examinou ao pormenor cada canário, cada pena. Já desesperado, pegou nos dois irmãos que mais se pareciam com os canários da prima Josefa, entregou duas notas enrodilhadas que trazia no bolso (“uma fortuna, uma fortuna”, murmurava) e partiu a correr de volta a casa.
– “Ermelinda, o nosso segredo deve ser guardado com a vida”
– “Pela minha rica saúde, esteja descansado Senhor dos Pássaros”. 

 

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