Da arte de não saber fazer

De repente apercebeu-se de que já não sabia escrever. As vírgulas caiam no papel como pingos de chuva.  Os pontos finais, ridiculamente gordos, apareciam nos sítios mais improváveis. As letras, aquelas letras tristemente coladas e encavalitadas, não passavam de um labirinto confuso. Já não sabia onde raio iria largar os pontos de exclamação feitos a régua porque, afinal, já não serviam de nada. No fim, uma mancha preta, em coluna, sem sentido, sem estética, sem glória. Erros grandes e pequenos, erros patéticos de quem já nem precisa de vogais. Porque são só erros. E já que são erros, que vençam as consoantes então. Também têm os seus direitos. Erros magros ou obesos, não interessa, são sempre erros e há que pagar por eles. Depois, quando lhe disseram que já não sabia escrever, pousou a caneta e acreditou.

Neste exercício os pés não são en dehors, são paralelos. Portanto, trata de os pôr em paralelo. E por amor de Deus, endireita-me essas costas. Podes deixar cair os braços, porque aqui não vais precisar deles esticados. Costas direitas e braços caídos, os pés paralelos. Será assim tão difícil? Convém dizer que os grand jeté não são para marcar, são para fazer. F-a-z-e-r. Desculpa, tens razão.

A Belinha um dia recomendou-nos chapéus de chuva amarelos por causa da chuva, mas eu perdi esse poema e outro sobre pirilampos. Achava que ia saber escrever para sempre e guardei-o num sítio de que agora me esqueci. Se calhar ao pé da antena que só funcionava quando queria e que gostava que nos aproximassemos dela. Coitada, também ela achou que eu ia saber escrever para sempre, a antena. Acho que quando não funcionava o que queria era dar-nos tempo para decorarmos as capitais do mundo todo. Não decorei, mas agora também já não interessa porque já não sei escrever. Mas ao menos fui a Tallinn. E a Belinha, com os seus pés de bailarina em contramão, esteve em Pequim. Essas eu tinha decorado.

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3 comentários

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3 responses to “Da arte de não saber fazer

  1. Olá Catarina, tudo bem? Legal seu blog! Qdo quiser, visite o meu! Um abraço, Eduardo

    http://www.maneirasimples.wordpress.com

  2. Anónimo

    Quando se le` pela primeira vez ha’ mais sentimentos a sair pelos poros, mas palavra alguma, por tanto que a caneta a engrosse – com marcadores azuis e a mao aos circulos – e’ capaz de dizer inteiro, o que qualquer humano diz melhor, de surpresa, isso de dizer exactamente, no silencio, cada linha que sente. Talvez por isso nao fique aqui marcado metade do queira, metade do que te quero – e tentei pegar na caneta e engrossar as palavras com marcadores azuis e a mao aos circulos. Desde manha que repousa a memoria de nos a uma distancia de oito horas e so agora que escrevo sem acentos reparo que nao sei mais do que isso, dizer em silencio, e tu sabes o que isso significa por todas as bailarinas que nos cresciam nas pontas dos pes embora nem sempre tenhamos saido a dancar pela sala… parecia pequena – tanta coisa la’ dentro – so’ eu e tu eramos maiores – o globo estampado na mesa, o sofa aberto, a Ana, ‘as vezes, no computador, e os livros, ate’ os esquilos de Lobo Antunes apareciam de noite…
    e quando chego aqui vejo-te com a caneta inclinada sem nunca a descansar o tempo suficiente para alguem nos fazer crer numa arte de nao saber fazer.. que as palavras doem se calhar podiam ter-nos dito mais cedo, antes de termos pintado o globo de papel com o sonho de cobrir o mundo . Nao sei se e’ tarde para nos arrependermos de termos sonhados – em africa por paixao, na asia por incompreensao. nao sei se e tarde…. mas nao acredites quando te fizerem pousar a caneta, mesmo que as palavras pesem e parece que ja nao temos coracao – apenas uma especie de peito encarpado numa pagina, porque afinal somos dos outros. nao sei se e tarde … mas chego em breve e talvez ainda saiba onde escondiamos os pirilampos e possamos, assim, sair ‘a rua com chapeus de chuva amarelos ….

    B.

    mas estampavamos o globo em cima da mesa –

    Africa talvez por paixao, talvez para a incompreensao e na verdade
    Chego em brevo espero conseguir dizer-te onde esta a caixa das bailarinas e levar-te um pirilampo no bolso, que possa sempre sobreviver aos nossos pes em Tallin ou Pequim…

    Nao me admira que as haja em ti um labirinto se quando

    Nao acredites… mesmo que quando as palavras pesam e parece que ja’ nao temos coracao. Apenas uma espe’cie de peito encarpado esticado numa pa’gina porque afinal somos dos outros.

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