Afinal, não voltei

“Quase meio ano depois” (Texto de 23 de Julho de 2009)

Foi no dia 14, em Fevereiro. Já não havia sol quando entrámos no avião. A viagem de volta a Portugal foi atribulada, com direito a um sem número de complicações. Uma noite no aeroporto de Stansted, quase um litro de café com leite e uma noite sem dormir. Um voo que marcou o fim de seis meses na capital de um país que por cá às suscita perguntas como “Estiveste na Eslováquia não foi?”. Eslovénia, foi na Eslovénia.

Há uma imagem que me aparece sempre com bastante nitidez: abro a janela de manhã antes de sair para as aulas e vejo um manto branco, enorme, impenetrável, que me faz ficar uns minutos parada antes de começar a enfiar a roupa toda que não me deixava congelar no meio da rua. Descobri que adoro neve. Sim, pois, adoro neve quando não está a derreter e se enfia por dentro das botas e congela os pés até deixar de os sentir. Mas adoro neve. A neve não molha o guarda-chuva. No dia do meu aniversário nevou. E ainda bem que nevou no dia do meu aniversário.

Devia ter fotografado a rua da faculdade. Quer dizer, fotografei, mas só com neve. Devia ter fotografado em Outubro também. O chão não era chão, eram folhas. Foi antes da neve que conhecemos Ljubljana, quando ainda não havia as temperaturas negativas do Inverno. Caminhámos junto ao rio até à Dragons Bridge, andámos em Mestni p’ra lá e pr’a cá. “Esta é a minha rua preferida”. Era, continuará a ser quando lá voltar, tenho a certeza. Uma rua larga, silenciosa, as casas coloridas, as lojas pequenas e convidativas, as esplanadas, o café ao fundo com umas mesas altas em que passei horas sem ver as horas passar. Ah, e o os burritos do Café Romeu, claro.

Ficaram na nossa residência em Topniska os jantares no 1407, quase sempre acompanhados com sangria. O vinho rasca do Inter Spar, a fruta e os sumos pesavam-nos sempre nos sacos que trazíamos no autocarro quando voltávamos do BTC. Esperávamos pelo 7 na paragem enquanto tagarelávamos em português despertando alguns olhares curiosos,mas sempre discretos. Mais discretos do que nós com certeza. Ninguém nos percebia, era essa a nossa sorte.

Ficaram junto ao rio os inúmeros cafés, os chás, as conversas. Ficaram junto ao Ljubljanica uns quantos portugueses encostados a uma parede para se abrigarem da chuva no dia em que resolveram provar o típico vinho cozido que os eslovenos adoram. Estão lá os milhares de bicicletas a correr pelas ruas. Não comprei uma bicicleta, ia ficar muito frio e em Fevereiro tinha de ir embora. Não, não comprei, mas tinha o passe e esperava pelo 7, o 19 ou 20. Íamos ao centro, adorávamos ir ao centro. Comprei um cachecol e umas luvas na primeira semana e estávamos em Setembro. Depois ficou ainda mais frio. O tempo foi ficando mais frio, Ljubljana não.

Não foram só dias, foram noites também. Noites de música, de sorrisos que vieram de longe para se encontrarem no Parlament em Kongresni Trg ou no Compañeros na Slovenska. Para se encontrarem numa qualquer esplanada, numa aula, num jantar na residência de Bezigrad ou num dos muitos restaurantes da cidade.

Foi Veneza, Trieste, Zagreb, Viena, Graz, Praga, Sarajevo e tantas outras cidades a que chegámos de mapa na mão. E Budapeste, foi Budapeste também. Horas dentro de comboios, mudanças em estações com um ar duvidoso e as muitas paragens nas fronteiras que valeram mais do que a pena.

Chegámos a Lisboa no outro dia de manhã. Ficou o abraço à porta do autocarro para o aeroporto e um “I’ll see you around”. Porque adeus não parecia uma opção. Foi no dia 14, em Fevereiro.

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1 Comentário

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One response to “Afinal, não voltei

  1. Anónimo

    :) Gostei muito! Parabéns

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