Serra acima

 

“Papá, esta água vem de onde?” De pés descalços junto à Fonte de São João, chapéu cor-de-rosa e saia de ganga, uma menina vai chapinhando enquanto o pai acaba de encher o último garrafão. Ao fim-de-semana,  a romaria às onze bicas que correm incessantemente no centro da vila do Luso intensifica-se. Avós e netos, pais e filhos, casais, novos e velhos, vão chegando com três, cinco, dez garrafões, que depois de cheios acabam alinhados na bagageira do carro à espera de voltarem para casa. Às vezes passa o turista, que por esta altura ainda rareia, e enche uma garrafita para matar a sede. Apesar do vaivém dos engarrafamentos, o Luso não perde a calma nem o silêncio. Estranho e ao mesmo tempo reconfortante para quem chega da confusão da cidade. O calor de Junho faz-se sentir. Ali ao lado, há quem esteja relaxar para as famosas e medicinais termas no Edifício Casino, construído sobre o balneário termal em 1855. Alguns metros abaixo, a relva do Parque do Lago está colorida por dezenas mantas e mesas de pic-nic de um grupo que por aqui combinou um almoço, mas ainda há muita sombra para quem a quiser. Num banquito de madeira por entre as raízes das árvores junto à água há quem tire fotografias aproveitando o repuxo ao fundo. À saída do parque, mais um clique na máquina, desta vez ao pé do imponente Grande Hotel do Luso, remodelado este ano. O calor continua a apertar. A entrada para a mata Nacional do Buçaco é já ali. Os aventureiros, amantes da natureza ou simplesmente quem não tem as horas contadas põe-se a caminho pelas íngremes escadinhas até miradouro da Cruz Alta, 550 metros acima do nível do mar. A recompensa pelo esforço é uma vista assombrosa sobre o verde da região, e se o tempo ajudar, para as serras do Caramulo e da Estrela. Quem sobe pela encosta de carro paga a entrada, mas recebe em troca um caminho diferente de todos os outros: ladeado por árvores colossais, engolido por um silêncio que chega a ser desconcertante. A certa altura,há que estar atento às indicações, parar o carro e descer a pé o vale dos fetos, onde nem apetece testar o eco para prolongar a paz.

 

 

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