Jojo Moyes: “Sonhava ver o meu nome na lombada de um livro”

Foi telefonista, trabalhou numa agência de viagens, escreveu textos em ‘braille’ e após dez anos no jornalismo tornou-se uma das mais bem-sucedidas romancistas britânicas.

Em casa de Jojo Moyes existe um caderno antigo repleto de longas histórias sobre meninas que se atrevem a enfrentar criminosos e de bandas desenhadas que ela própria escrevia e ilustrava quando era criança. Passaram os tempos de infância, mas não a vontade de poder “traduzir o mundo em palavras”.

Sentada à mesa de um restaurante em Lisboa, a escritora britânica estica os dedos, um a um, enquanto enumera o nome dos países onde os seus livros já foram traduzidos. São mais de treze, e Portugal é um deles. Dizendo-se “deliciada” com a gastronomia portuguesa, responde às perguntas do DN entre garfadas e sorrisos amáveis. Distinguida em 2004 e em 2011 com o galardão britânico Romance do Ano, a ex-jornalista do The Independent descreve, num tom sereno, o momento em que soube que ia conseguir publicar o seu primeiro romance, após três tentativas mal-sucedidas. “Em Inglaterra há leilões, via telefone, em que as editoras fazem ofertas para a publicação dos livros. E se antes ninguém queria publicar-me, de repente apareceram seis editoras interessadas no romance Retrato de Família. Estava na redacção, em 2002, quando a minha agente ligou e disse para me sentar. Eu estava muito grávida.”

Jojo costumava dizer que ficava feliz se o livro lhe desse dinheiro suficiente para arranjar a banheira lá de casa. A certa altura, a agente diz-lhe ao telefone: “Acho que vamos arranjar a tua banheira.” As ofertas continuavam a subir, até que atingiram um valor que lhe permitiria dedicar-se à escrita a tempo inteiro. Desfez-se em lágrimas. Na redacção do The Independent, a colega ao seu lado também chorava. Era quase altura do Natal, e um editor que não sabia de nada disse-lhe: “Pára de chorar, quero um texto de 500 palavras sobre como rechear um peru.” “E eu escrevi a história do peru, enquanto ao telefone a agente me dizia: ‘O valor subiu, subiu outra vez.'” Desde essa altura, Jojo já publicou mais sete romances.

Mãe de três filhos, sobra-lhe pouco tempo para a vida social. Há muito que deixou a confusão de Londres, onde nasceu em 1969, para se refugiar com a família numa quinta a Nordeste da capital. É lá que muitas vezes passeia a cavalo com a filha de 13 anos. Confessa que nem sempre é fácil gerir trabalho e família. O marido, jornalista, tem um horário complicado.

Enquanto prova os tradicionais fios de ovos, à sobremesa, Jojo explica que teve “alguns trabalhos maus” antes de chegar ao Independent: “Fui telefonista de uma empresa de taxis, trabalhei num banco a escrever cartas em braille e para uma agência de viagens com má fama no país.”

Conseguia imaginar que os seus livros alcançariam tanto sucesso? “Como escrevi três romances que não consegui publicar, o meu sonho era simplesmente ver o meu nome na lombada de um livro.”

O sonho tornou-se realidade, mas Jojo não esconde que consegue ser muito pessimista. “Tenho de saber o que fazer no pior cenário possível. Sou a pessoa que entra no hotel e verifica onde são as saídas de emergência. Sou catastrofista.” Ainda assim, não se imagina a fazer qualquer outra coisa além de escrever.

Há dois anos, as editoras estavam com problemas financeiros. Ficou insegura, começou a pensar no que faria se perdesse o seu contrato. Um dia, viu uma mulher polícia a cavalo e pensou: “Este podia ser um trabalho interessante para mim.” Logo a seguir teve uma ideia: “Podia escrever um bom livro sobre uma mulher polícia.” Acaba por associar todas as ideias a um livro. É a rir que diz: “Estou condenada.”´

Jojo Moyes esteve na Feira do Livro de Lisboa para apresentar o seu romance ‘Retrato de Família’

“Sonho com o livro e falo com as personagens durante o sono”

 Jojo Moyes esteve na Feira do Livro de Lisboa para apresentar o seu romance Retrato de Família, onde cabem duas histórias de amor, em duas gerações diferentes. Uma nos anos 60 e outra nos tempos modernos. Apesar de não bloquear enquanto escreve, nem sempre o trabalho de Jojo se revela fácil. Normalmente, escreve de Setembro a Julho. Em Outubro anda pela casa a dizer que não terá tempo de acabar o livro, quando “ainda nem começou”. Em Novembro tem 20 mil palavras escritas e diz: “Isto não vai resultar, não sei o que fazer.” A partir de Janeiro, está “muito empenhada”, mas continua a dizer: “Não sei porque comecei este livro, mas já não tenho tempo de escrever outro.” Em Abril, o discurso já mudou: “Adoro o livro, digo ao meu marido que não posso falar com ele porque quero escrever.” Sonho com o livro, falo com as personagens durante o sono.” Depois, reescreve uma parte em Junho e entrega. Aí, diz que se sente triste: “O meu livro desapareceu.”

[Publicado no DN a 14 de Maio de 2011]

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