Jostein Gaarder: “Tornei-me famoso por afirmar: o mundo existe”

De uma janela do hotel, Jostein Gaarder vê uma Lisboa cinzenta. Inconformado, o escritor norueguês procura o sol na previsão do tempo que lhe aparece no telemóvel. Digo-lhe para ter esperança. “Sim, mas também tenho de ser realista”

“Certas pessoas ficam aborrecidas por lhes recordarem que existem.” É o que diz Solrun, uma das personagens de O Castelo dos Pirenéus, que vem apresentar na Feira do Livro. Numa altura em que as pessoas andam sempre tão ocupadas, há quem esteja disponível para pensar sobre as questões que levanta neste romance?

Quando tinha 11 anos, lembro-me de perguntar aos meus pais e professores: “Não acham que é estranho que o mundo exista?” Eles diziam: “Não, nem por isso.” Deviam achar-me louco ou algo assim. Pode dizer-se que me tornei mundialmente famoso por afirmar: “O mundo existe.” Por lembrar as pessoas da experiência mais óbvia que temos em comum. Nascemos curiosos, mas à medida que vamos crescendo, começamos a olhar a vida como um hábito. Esquecemo-nos de questionar. Às vezes precisamos de nos tornar avós ou de ficarmos doentes para voltar a questionar as coisas.

A maneira como olhamos o mundo é totalmente influenciada pela educação que recebemos?

Cresci rodeado de muitos livros. Os meus pais liam-me contos populares e livros para crianças. Isso foi muito importante, mas houve em mim uma espécie de ignição, uma experiência especial. Quando ia com os meus amigos no caminho para a escola, perguntava-lhes também: “Não acham estranho que vivamos?” Eles diziam que não. Falavam sobre o Gagarin e jogavam futebol. Sentia-me um outsider. Desde criança que me habituei a caminhar pela floresta, fora da cidade, durante horas, sem encontrar uma única pessoa.

Neste livro existe um diálogo constante entre razão e fé, ciência e religião. Sendo um racionalista, foi difícil construir uma personagem com um lado espiritual?

Foi uma necessidade. Quando comecei a escrever pensava da mesma forma que [a personagem] Steinn, baseando-me na razão. Mas quando comecei a moldar a Solrun, a escrever a sua história, comecei a ouvi-la. Este livro é um encontro entre uma forma espiritual de olhar a vida e uma outra mais científica. Um encontro que começou a transformar-se num diálogo dentro da minha própria mente. Estou mais aberto a possíveis dimensões sobrenaturais do que antes.

Cria laços emocionais com as suas personagens ou elas são apenas um veículo para transmitir aos leitores aquilo que gostaria de lhes ensinar pessoalmente?

Ambos. Não posso dizer que me deixei levar pelos personagens quando escrevi O Mundo de Sofia. Elas estão lá como simples instrumentos para apresentar aspectos filosóficos. Noutros livros, como O Inigma e o Espelho, existe uma rapariga que sofre de leucemia e que, no final do livro, está a morrer. Sinto-me muito apegado a ela. Em O Castelo dos Pirenéus, consigo identificar-me com os pontos de vista de Steinn, mas sinto que a mulher tem mais impacto em mim enquanto ser humano. Há muitas semelhanças entre a vida daquele casal e a minha e da minha mulher.

Sei que quando eram novos tinham uma reprodução do quadro de Magritte que deu nome a este livro na parede do quarto…

Sim, tínhamos um poster. É uma pintura que retrata o impossível, com uma enorme rocha a flutuar no espaço.

Inspirou-o?

Sim, há muita coisa que vou buscar à minha vida nos anos 70. Eu e a minha mulher agíamos de forma muito semelhante à de Solrun e Steinn. Podíamos ser nós a guiar aquele Volkswagen vermelho pelas montanhas.

Tinha um Volkswagen vermelho?

Tínhamos um Fiat vermelho. A grande diferença é que depois de cinco anos apaixonados, eles separam-se por terem uma interpretação completamente diferente de uma experiência que viveram. Quando voltam a encontrar-se, exactamente no mesmo sítio onde viveram essa experiência, a história de amor recomeça.

Acredita que poderiam ter estado apaixonados durante os 30 anos em que não se viram?

Um deles diz que é como se tivessem comunicado, telepaticamente, durante aquele tempo. Eu tenho amigos que já não estão vivos e às vezes falo com eles. Não com a minha a voz, mas…. 

Jostein Gaarder, autor de 'O Mundo de Sofia'

Foi professor de Filosofia durante muitos anos. Ser escritor é uma continuação desse trabalho?

De certa maneira continuo a considerar-me um professor. Depois de escrever O Mistério do Jogo das Paciências, o meu primeiro grande sucesso, ganhei prémios e pensei tornar-me escritor a tempo inteiro. Foi por isso que escrevi O Mundo de Sofia, baseando-me na minha experiência a ensinar jovens. Não podia desperdiçar isso, e senti que era um dever escrever esta obra. Disse à minha mulher: “Estou a escrever um livro que, provavelmente, não nos dará dinheiro nenhum.” Ela disse: “Então escreve-o rápido.” E escrevi. Em três meses, durante 15 horas por dia. O meu editor na Noruega hesitou em publicá-lo porque é um livro híbrido. É sobre filosofia, mas, ainda assim, um romance. Na altura, escrevi um cartão à editora a agradecer por publicarem um livro por razões culturais (risos). Não tardou muito até serem eles a agradecer.

Não se sente perseguido pelo sucesso d’ O Mundo de Sofia?

Já pensei dessa maneira, mas não posso queixar-me. A Sofia abriu-me a porta para a publicação de outros livros, meus e de outros autores escandinavos. Nos EUA deixaram de rejeitar os livros só por serem noruegueses.

Depois de ter começado a escrever, sentiu que era um dever continuar a fazê-lo?

Depois de publicar um livro de grande sucesso, há quem tenha medo de escrever coisas novas. Temos medo de competir connosco próprios. Para ser honesto, sinto que a minha missão como escritor foi cumprida. Mas há um livro que sinto que tenho de escrever. É sobre um tema muito sério: o aquecimento global.

Preocupa-se com o planeta…

Estou preocupado com a civilização. Temos pensado em formas de proteger a natureza, mas agora trata-se de perceber como irá a civilização sobreviver após termos destruído tanto. Mas não sou pessimista. Pessimismo é sinónimo de preguiça. Ser pessimista é mostrar que não queremos responsabilidades. Ser optimista implica lutar. Há uma palavra entre optimismo e pessimismo: esperança. E a esperança pode ser associada a uma posição lutadora.

Faço-lhe uma questão que coloca no seu livro: imagine que tem dois botões na mesa à sua frente. Se carregar num deles pode viver até aos cem anos, mas toda a humanidade morrerá nessa altura. Se carregar no outro, morre imediatamente, mas a civilização continuará a existir para sempre. Qual deles escolhe?

Juro que não hesitaria: escolheria morrer imediatamente.

[Entrevista publicada no DN a 7 de Maio de 2011]

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2 comentários

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2 responses to “Jostein Gaarder: “Tornei-me famoso por afirmar: o mundo existe”

  1. Anónimo

    Jostein Gaarder…Li recentemente “Através do espelho” é LINDO!!!
    Pensei que ele como Ariel…é um ser Hidrido(risos)…
    Tive sonhos …revi meus mortos…senti meus mortos…ele escreve sobre a vida e a morte…de uma forma “balsamica”…É lindo de chorar…penso que devia ser lidos por todos…É lindo!
    Tornei-me fã …
    Lucia di Fatima
    pluralesingulares.wordpress.com

  2. Anónimo

    Catarina…fico cheia de esperança ao ver jovens como você, interessada nas contribuições tão signifativas para todos.Como é o caso de Jostein G.
    LuciadiFatima

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