Monthly Archives: Maio 2011

Jojo Moyes: “Sonhava ver o meu nome na lombada de um livro”

Foi telefonista, trabalhou numa agência de viagens, escreveu textos em ‘braille’ e após dez anos no jornalismo tornou-se uma das mais bem-sucedidas romancistas britânicas.

Em casa de Jojo Moyes existe um caderno antigo repleto de longas histórias sobre meninas que se atrevem a enfrentar criminosos e de bandas desenhadas que ela própria escrevia e ilustrava quando era criança. Passaram os tempos de infância, mas não a vontade de poder “traduzir o mundo em palavras”.

Sentada à mesa de um restaurante em Lisboa, a escritora britânica estica os dedos, um a um, enquanto enumera o nome dos países onde os seus livros já foram traduzidos. São mais de treze, e Portugal é um deles. Dizendo-se “deliciada” com a gastronomia portuguesa, responde às perguntas do DN entre garfadas e sorrisos amáveis. Distinguida em 2004 e em 2011 com o galardão britânico Romance do Ano, a ex-jornalista do The Independent descreve, num tom sereno, o momento em que soube que ia conseguir publicar o seu primeiro romance, após três tentativas mal-sucedidas. “Em Inglaterra há leilões, via telefone, em que as editoras fazem ofertas para a publicação dos livros. E se antes ninguém queria publicar-me, de repente apareceram seis editoras interessadas no romance Retrato de Família. Estava na redacção, em 2002, quando a minha agente ligou e disse para me sentar. Eu estava muito grávida.”

Jojo costumava dizer que ficava feliz se o livro lhe desse dinheiro suficiente para arranjar a banheira lá de casa. A certa altura, a agente diz-lhe ao telefone: “Acho que vamos arranjar a tua banheira.” As ofertas continuavam a subir, até que atingiram um valor que lhe permitiria dedicar-se à escrita a tempo inteiro. Desfez-se em lágrimas. Na redacção do The Independent, a colega ao seu lado também chorava. Era quase altura do Natal, e um editor que não sabia de nada disse-lhe: “Pára de chorar, quero um texto de 500 palavras sobre como rechear um peru.” “E eu escrevi a história do peru, enquanto ao telefone a agente me dizia: ‘O valor subiu, subiu outra vez.'” Desde essa altura, Jojo já publicou mais sete romances.

Mãe de três filhos, sobra-lhe pouco tempo para a vida social. Há muito que deixou a confusão de Londres, onde nasceu em 1969, para se refugiar com a família numa quinta a Nordeste da capital. É lá que muitas vezes passeia a cavalo com a filha de 13 anos. Confessa que nem sempre é fácil gerir trabalho e família. O marido, jornalista, tem um horário complicado.

Enquanto prova os tradicionais fios de ovos, à sobremesa, Jojo explica que teve “alguns trabalhos maus” antes de chegar ao Independent: “Fui telefonista de uma empresa de taxis, trabalhei num banco a escrever cartas em braille e para uma agência de viagens com má fama no país.”

Conseguia imaginar que os seus livros alcançariam tanto sucesso? “Como escrevi três romances que não consegui publicar, o meu sonho era simplesmente ver o meu nome na lombada de um livro.”

O sonho tornou-se realidade, mas Jojo não esconde que consegue ser muito pessimista. “Tenho de saber o que fazer no pior cenário possível. Sou a pessoa que entra no hotel e verifica onde são as saídas de emergência. Sou catastrofista.” Ainda assim, não se imagina a fazer qualquer outra coisa além de escrever.

Há dois anos, as editoras estavam com problemas financeiros. Ficou insegura, começou a pensar no que faria se perdesse o seu contrato. Um dia, viu uma mulher polícia a cavalo e pensou: “Este podia ser um trabalho interessante para mim.” Logo a seguir teve uma ideia: “Podia escrever um bom livro sobre uma mulher polícia.” Acaba por associar todas as ideias a um livro. É a rir que diz: “Estou condenada.”´

Jojo Moyes esteve na Feira do Livro de Lisboa para apresentar o seu romance ‘Retrato de Família’

“Sonho com o livro e falo com as personagens durante o sono”

 Jojo Moyes esteve na Feira do Livro de Lisboa para apresentar o seu romance Retrato de Família, onde cabem duas histórias de amor, em duas gerações diferentes. Uma nos anos 60 e outra nos tempos modernos. Apesar de não bloquear enquanto escreve, nem sempre o trabalho de Jojo se revela fácil. Normalmente, escreve de Setembro a Julho. Em Outubro anda pela casa a dizer que não terá tempo de acabar o livro, quando “ainda nem começou”. Em Novembro tem 20 mil palavras escritas e diz: “Isto não vai resultar, não sei o que fazer.” A partir de Janeiro, está “muito empenhada”, mas continua a dizer: “Não sei porque comecei este livro, mas já não tenho tempo de escrever outro.” Em Abril, o discurso já mudou: “Adoro o livro, digo ao meu marido que não posso falar com ele porque quero escrever.” Sonho com o livro, falo com as personagens durante o sono.” Depois, reescreve uma parte em Junho e entrega. Aí, diz que se sente triste: “O meu livro desapareceu.”

[Publicado no DN a 14 de Maio de 2011]

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Jostein Gaarder: “Tornei-me famoso por afirmar: o mundo existe”

De uma janela do hotel, Jostein Gaarder vê uma Lisboa cinzenta. Inconformado, o escritor norueguês procura o sol na previsão do tempo que lhe aparece no telemóvel. Digo-lhe para ter esperança. “Sim, mas também tenho de ser realista”

“Certas pessoas ficam aborrecidas por lhes recordarem que existem.” É o que diz Solrun, uma das personagens de O Castelo dos Pirenéus, que vem apresentar na Feira do Livro. Numa altura em que as pessoas andam sempre tão ocupadas, há quem esteja disponível para pensar sobre as questões que levanta neste romance?

Quando tinha 11 anos, lembro-me de perguntar aos meus pais e professores: “Não acham que é estranho que o mundo exista?” Eles diziam: “Não, nem por isso.” Deviam achar-me louco ou algo assim. Pode dizer-se que me tornei mundialmente famoso por afirmar: “O mundo existe.” Por lembrar as pessoas da experiência mais óbvia que temos em comum. Nascemos curiosos, mas à medida que vamos crescendo, começamos a olhar a vida como um hábito. Esquecemo-nos de questionar. Às vezes precisamos de nos tornar avós ou de ficarmos doentes para voltar a questionar as coisas.

A maneira como olhamos o mundo é totalmente influenciada pela educação que recebemos?

Cresci rodeado de muitos livros. Os meus pais liam-me contos populares e livros para crianças. Isso foi muito importante, mas houve em mim uma espécie de ignição, uma experiência especial. Quando ia com os meus amigos no caminho para a escola, perguntava-lhes também: “Não acham estranho que vivamos?” Eles diziam que não. Falavam sobre o Gagarin e jogavam futebol. Sentia-me um outsider. Desde criança que me habituei a caminhar pela floresta, fora da cidade, durante horas, sem encontrar uma única pessoa.

Neste livro existe um diálogo constante entre razão e fé, ciência e religião. Sendo um racionalista, foi difícil construir uma personagem com um lado espiritual?

Foi uma necessidade. Quando comecei a escrever pensava da mesma forma que [a personagem] Steinn, baseando-me na razão. Mas quando comecei a moldar a Solrun, a escrever a sua história, comecei a ouvi-la. Este livro é um encontro entre uma forma espiritual de olhar a vida e uma outra mais científica. Um encontro que começou a transformar-se num diálogo dentro da minha própria mente. Estou mais aberto a possíveis dimensões sobrenaturais do que antes.

Cria laços emocionais com as suas personagens ou elas são apenas um veículo para transmitir aos leitores aquilo que gostaria de lhes ensinar pessoalmente?

Ambos. Não posso dizer que me deixei levar pelos personagens quando escrevi O Mundo de Sofia. Elas estão lá como simples instrumentos para apresentar aspectos filosóficos. Noutros livros, como O Inigma e o Espelho, existe uma rapariga que sofre de leucemia e que, no final do livro, está a morrer. Sinto-me muito apegado a ela. Em O Castelo dos Pirenéus, consigo identificar-me com os pontos de vista de Steinn, mas sinto que a mulher tem mais impacto em mim enquanto ser humano. Há muitas semelhanças entre a vida daquele casal e a minha e da minha mulher.

Sei que quando eram novos tinham uma reprodução do quadro de Magritte que deu nome a este livro na parede do quarto…

Sim, tínhamos um poster. É uma pintura que retrata o impossível, com uma enorme rocha a flutuar no espaço.

Inspirou-o?

Sim, há muita coisa que vou buscar à minha vida nos anos 70. Eu e a minha mulher agíamos de forma muito semelhante à de Solrun e Steinn. Podíamos ser nós a guiar aquele Volkswagen vermelho pelas montanhas.

Tinha um Volkswagen vermelho?

Tínhamos um Fiat vermelho. A grande diferença é que depois de cinco anos apaixonados, eles separam-se por terem uma interpretação completamente diferente de uma experiência que viveram. Quando voltam a encontrar-se, exactamente no mesmo sítio onde viveram essa experiência, a história de amor recomeça.

Acredita que poderiam ter estado apaixonados durante os 30 anos em que não se viram?

Um deles diz que é como se tivessem comunicado, telepaticamente, durante aquele tempo. Eu tenho amigos que já não estão vivos e às vezes falo com eles. Não com a minha a voz, mas…. 

Jostein Gaarder, autor de 'O Mundo de Sofia'

Foi professor de Filosofia durante muitos anos. Ser escritor é uma continuação desse trabalho?

De certa maneira continuo a considerar-me um professor. Depois de escrever O Mistério do Jogo das Paciências, o meu primeiro grande sucesso, ganhei prémios e pensei tornar-me escritor a tempo inteiro. Foi por isso que escrevi O Mundo de Sofia, baseando-me na minha experiência a ensinar jovens. Não podia desperdiçar isso, e senti que era um dever escrever esta obra. Disse à minha mulher: “Estou a escrever um livro que, provavelmente, não nos dará dinheiro nenhum.” Ela disse: “Então escreve-o rápido.” E escrevi. Em três meses, durante 15 horas por dia. O meu editor na Noruega hesitou em publicá-lo porque é um livro híbrido. É sobre filosofia, mas, ainda assim, um romance. Na altura, escrevi um cartão à editora a agradecer por publicarem um livro por razões culturais (risos). Não tardou muito até serem eles a agradecer.

Não se sente perseguido pelo sucesso d’ O Mundo de Sofia?

Já pensei dessa maneira, mas não posso queixar-me. A Sofia abriu-me a porta para a publicação de outros livros, meus e de outros autores escandinavos. Nos EUA deixaram de rejeitar os livros só por serem noruegueses.

Depois de ter começado a escrever, sentiu que era um dever continuar a fazê-lo?

Depois de publicar um livro de grande sucesso, há quem tenha medo de escrever coisas novas. Temos medo de competir connosco próprios. Para ser honesto, sinto que a minha missão como escritor foi cumprida. Mas há um livro que sinto que tenho de escrever. É sobre um tema muito sério: o aquecimento global.

Preocupa-se com o planeta…

Estou preocupado com a civilização. Temos pensado em formas de proteger a natureza, mas agora trata-se de perceber como irá a civilização sobreviver após termos destruído tanto. Mas não sou pessimista. Pessimismo é sinónimo de preguiça. Ser pessimista é mostrar que não queremos responsabilidades. Ser optimista implica lutar. Há uma palavra entre optimismo e pessimismo: esperança. E a esperança pode ser associada a uma posição lutadora.

Faço-lhe uma questão que coloca no seu livro: imagine que tem dois botões na mesa à sua frente. Se carregar num deles pode viver até aos cem anos, mas toda a humanidade morrerá nessa altura. Se carregar no outro, morre imediatamente, mas a civilização continuará a existir para sempre. Qual deles escolhe?

Juro que não hesitaria: escolheria morrer imediatamente.

[Entrevista publicada no DN a 7 de Maio de 2011]

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Nem telas, nem palavras

Se soubesse pôr esta paisagem numa tela, não precisava de andar agora às voltas com as palavras. Sei lá! São nuvens cor de chumbo, montes ensopados pela água que de repente o céu decidiu entornar e árvores magras que já mataram a sede? Um dia achei que até podia ter jeito com os pincéis. Desenhei um parque e uma ou outra coisa mais ou menos abstracta. Ah, e o peixe. O peixe até foi o meu preferido, mas o esforço não compensava. Desisti dos pincéis, estão para lá especados dentro de um boião de vidro transparente que um dia já deve  ter estado cheio de pickles. Então, fui pegar nas palavras. Só que se calhar pego mais nas palavras dos outros do que nas minhas. Manda a profissão. Tanto que agora quero dizer qual é a cor dos montes molhados que ali estão e só sei dizer que são verdes. Há milhões de coisas verdes. Tantas que quando as começasse a contar já o tempo tinha acabado. Ora, recuso-me a dizer que os montes que vejo da janela do comboio são verdes. Têm de ser outra coisa qualquer. Vendo bem, se calhar são da cor de uma saia que a minha avó tem lá por casa. Até pode ser. Mas de certeza que a saia da minha avó não tem aquelas manchas amarelas que por ali aparecem a estragar-me a comparação. Pronto, a saia da minha avó não serve, mas só verde também não. Se eu soubesse usar os pincéis como deve ser, não andava agora às voltas com as palavras. Apetece-me bater-lhes. Nelas, nas palavras, que me fogem sempre que ando atrás delas. Oh, mas não sou pessimista. É verdade: hoje disseram-me que há uma coisa intermédia entre o pessimismo e o optimismo, diz que é a esperança. Talvez, então, eu não seja optimista, nem pessimista enquanto ando a correr atrás das palavras. Tenho esperança de que um dia elas possam caber todas no bolso da minha gabardine cor-de-rosa. Depois é só pegar nelas quando me der na telha, em todas as que me apetecer, e deixar de ter pena por não me ajeitar com os pincéis.

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