A arte em palcos de calçada portuguesa

Edivon Messias, homem estátua na Rua Augusta (Foto: Gonçalo Villaverde)

Não têm de esperar que as luzes se apaguem e o pano suba. O seu palco são  as ruas da cidade. 

Quem ouve Francis a conversar no seu português desenrascado não pode imaginar que este francês de 38 anos está em Portugal há apenas três meses.Com uma colher de sopa na mão, sentado num café da Rua Augusta na sua hora de almoço, vai explicando como é que um mestre em etnologia pela Universidade de Paris vem para Portugal trabalhar como homem-estátua. Deixando escapar algumas palavras italianas e francesas, Francis Rigal conta que depois de ter estado dez anos a morar em Itália apeteceu-lhe mudar de cidade. Mas não podia ser uma cidade qualquer. Tinha de ser uma cidade cultural, algures na Europa e onde pudesse ter um apartamento grande para viver com a mulher e a filha.

Esforçando-se por se fazer entender, decide dar um exemplo. “É como quando temos um programa de computador: inserimos todos os dados que desejamos e up… apareceu Lisboa!”

A época natalícia traz às ruas da Baixa da cidade a azáfama das compras de Natal, mas também um espírito mais aberto para apreciar a animação de rua. Multiplicam-se os malabaristas, palhaços, músicos e coloridas bolas de sabão gigantes que os mais pequenos se esforçam por rebentar.

Francis não tem um disfarce, diz que é “neutro”. Pode ser quem quiser. Veste-se todo de branco, a cara pintada de branco e um chapéu da mesma cor. Às vezes tem uns pratinhos nas mãos. “Bom, sou uma pessoa com pratinhos.”

Em cima de dois banquitos, Francis equilibra-se em posições complicadas. Quando uma moeda cai à sua frente, demora ainda uns segundos antes de mudar de posição em sinal de agradecimento. A assistência sorri, deliciada.

“Trabalhar na rua é belo. Como se diz?”, pergunta, numa tentativa de encontrar a palavra certa. “É bonito. Porque a vida é na rua.”

Francis nasceu em Madrid, mas toda a sua família é francesa. Viveu em Paris até aos 27 anos e foi nessa altura que, “por acaso”, se mudou para Bolonha, em Itália, onde teve vários trabalhos. “Cheguei a trabalhar como etnólogo e também fiz muito trabalho de voluntariado em associações culturais.” A ideia de trabalhar como estátua surgiu há dez anos, depois de ter visto alguém na rua a fazer o mesmo. Mas este mestre em etnologia, um ramo da antropologia, quer apostar também na carreira académica e já está a preparar um doutoramento.

Quem também nunca se esquece de pensar no futuro é Edivon, que, alguns dias por semana, carrega o céu às costas no início da Rua Augusta, junto ao Rossio. Edivon Messias anima as ruas lisboetas desde que deixou o Brasil em 2008, não só para “procurar uma vida melhor, mas também pela aventura”. É um homem-estátua com vários disfarces – cavaleiro medieval, soldado espartano, bombeiro -, mas muitas vezes prefere ser Atlas, o titã grego que Zeus condenou a sustentar o céu nos ombros para sempre. Mas é com os pés bem assentes na terra que Edivon fala sobre os seus planos. O que quer mesmo é ir para a faculdade estudar educação física: “Isto é uma coisa de momento, não dá futuro para ninguém. A gente tem de ver o amanhã também. Talvez eu veja as pessoas pedindo esmola e dormindo na rua e penso em mim. Eu não sei: amanhã posso estar aí também. Não julgo essas pessoas que estão na rua, mas eu estou tentar a juntar o meu pé de meia.”

Quando não está a trabalhar nas ruas, viaja por feiras em Portugal e Espanha e diz que o mais difícil deste trabalho “acaba por ser mesmo o preconceito”. “Nem todas as pessoas têm, mas existe. Eu já nem ligo. Alguns, poucos, chateiam. Jogam pedras. Gritam : ‘vai trabalhar!’. Não entendem. Mas eu nem levo isso a sério.”

Sério é o projecto que Evandro Cabral está desenvolver para apoiar crianças carenciadas. Este saxofonista de 38 anos só sai para tocar nas ruas da baixa lisboeta na época natalícia. Diz que o faz por gosto e porque foi nas ruas e no metro que começou a trabalhar quando chegou a Portugal, também ele vindo do Brasil, há dez anos. O Projecto Reciclo Orquestra, que este antigo músico da orquestra sinfónica de São Paulo está a lançar no bairro da Encarnação, é apoiado pela Junta de Freguesia de Santa Maria dos Olivais e relaciona-se com reciclagem de materiais para fazer instrumentos musicais. “Vamos dar formação musical a pessoas carenciadas, utilizando os instrumentos que eles próprios vão fazer. Flautas, tambores, enfim”, explica Evandro, que segura um instrumento musical a que chamou “cenourofone”. Ou, como diz a sua filha pequena, uma “saxocenoura”.

O verdadeiro saxofone dourado com o qual dá concertos está guardado na mala. Na rua, Evandro costuma tocar instrumentos que ele próprio fabrica a partir de legumes. Diz que com estes consegue chamar a atenção dos comerciantes do seu bairro e angariar mais apoios para o seu projecto.

Quem passa e vê Evandro a tocar ficava espantado. O som parece o de um instrumento de sopro normal, mas, afinal, sai de uma cenoura com furinhos onde está encaixado um funil de plástico. “Quando a cenoura começa a ficar estragada, tenho outra esperando no frigorífico”, diz Evandro, entre risos. Também tem flautas feitas com pepinos ou outros instrumentos feitos a partir de peras ou de mandioca.

O músico, que tem ainda um projecto de fado chamado Próxima Paragem, em que a voz da fadista é substituída pelo som do seu saxofone, confessa que já não toca nas ruas para ganhar a vida, mas porque é algo que lhe dá prazer.

É também essa a razão pela qual Nuno Lamego, de 35 anos, trabalha desde os 16 como artista de rua. Gosta daquilo que faz. Junto aos Armazéns do Chiado, acompanhado pela pequena Honey Badger, uma cadela que, tal como ele, nasceu em Moçambique, este “malabarista em part-time” vai mantendo no ar as chamadas massas de malabarismo. “Ou bolas, por vezes trago bolas e também faço malabarismo de contacto, explica Nuno enquanto tenta manter Honey Badger por perto. Mas a verdadeira paixão deste artista de rua é a joalharia.

“Monto uma bancada a partir de uma mala e faço joalharia ao vivo. Nunca vi mais ninguém a fazer isso por aqui. Quando não posso, por causa da polícia, faço malabarismo, que geralmente é um bocadinho mais tolerado.”

Queixando-se da dificuldade que os artistas enfrentam para conseguir licenças, Nuno lamenta não poder vender as suas peças à vontade, por ter “medo que levem o material”. Ainda assim, este “caçador de destroços”, nome do seu projecto de jóias, não desiste: sonha abrir uma loja. Por enquanto, a rua continua a ser o seu único palco.

[Reportagem publicada no Diário de Notícias a 18 de Dezembro de 2010]
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1 Comentário

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One response to “A arte em palcos de calçada portuguesa

  1. Pranxas

    Parabéns pela reportagem. É interessante saber o que passa pelas cabeças (e pelas vidas) destas pessoas que vivem de animação de rua.

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