O regresso de ‘Rahmbo’ à cidade de Al capone

Rahm Emanuel com Obama

Até há pouco tempo, era o braço-direito de Obama. Agora, prepara-se para se candidatar à Câmara de Chicago, cidade onde nasceu

Um peixe morto embrulhado num jornal de Chicago. Foi este o presente de despedida que Rahm Emanuel recebeu quando na semana passada deixou a Casa Branca. Ninguém se surpreendeu com a brincadeira. Há uns anos, o antigo chefe de gabinete de Barack Obama e agora candidato a presidente da câmara de Chicago enviou, irritado, um peixe em decomposição a um analista de sondagens. Quem viu O Padrinho recordou uma das cenas do filme de Francis Ford Coppola e percebeu a intenção. Era uma ameaça. Neste caso, não de morte: ou a pessoa em questão saía do caminho de Rahm ou arriscava–se a ver a sua carreira a afundar-se no oceano.

A postura intimidatória deste democrata de 50 anos tem-lhe valido ao longo da carreira várias alcunhas pouco simpáticas, como “Pitbull” – diziam que era o cão de ataque de Barack Obama -, ou “Rahmbo”.

Quando em Janeiro de 2009 Emanuel se instalou no escritório reservado para o chefe de gabinete da Casa Branca, levou consigo uma lista telefónica pessoal com seis mil números que fez bloquear o sistema informático. Tratava quase todos os jornalistas por tu e fazia questão de manter boas relações com congressistas e donos de empresas.

Quem trabalha com ele sabe que tem de estar preparado para tudo. Para estar sob as ordens de uma pessoa que não consegue estar parada e usa vocabulário politicamente incorrecto em praticamente todas as frases. Caso o antigo braço direito de Obama suba ao poder em Chicago, a cidade onde nasceu, há uma dica de um antigo director do comité de campanha democrata (onde Emanuel trabalhou entre 2005 e 2007) que pode dar jeito a todos os que venham a integrar a sua equipa: “Desenvolver uma pele grossa, cancelar férias, casamentos e todos os compromissos pessoais. Aprender o que significa 25/8: estar disponível 25 horas por dia, oito dias por semana.”

Mas na cidade que ficará para sempre associada ao mafioso Al Capone, há quem tenha dúvidas da legitimidade da candidatura deste pai de três filhos. No estado do Illinois, ao qual Chicago pertence, a lei obriga a que os candidatos vivam há pelo menos um ano na cidade onde querem ser presidentes.

Emanuel, que até agora vivia em Washington, tem uma casa em Chicago, mas está alugada há dois anos e o inquilino recusa-se a sair por questões familiares. Mas este membro da ala centrista do Partido Democrata deverá resolver o problema, alegando que a sua intenção sempre foi manter em Chicago a sua residência permanente.

Como chefe de gabinete, Emanuel ocupava o segundo cargo mais importante na Casa Branca. Entre outras tarefas, estava encarregado de escolher e supervisionar todos os funcionários, de definir a agenda e aconselhar o Presidente ou ainda de negociar com o Congresso. No passado dia 1, quando Barack Obama anunciou o afastamento de Emanuel, definiu-o como o “solucionador a tempo inteiro de todos os problemas da Casa Branca”.

Filho de um pediatra judeu de Jerusalém e de uma psiquiatra americana, entrou na política como angariador de fundos para diversas campanhas dos democratas e tornou-se um dos mais importantes conselheiros de Bill Clinton, entre 1993 e 1999. “Ascensão meteórica” é uma expressão que dificilmente chegará para descrever o percurso político deste antigo bailarino. Emanuel, que teve aulas de ballet clássico até acabar o ensino secundário, serviu de inspiração para a criação do personagem Josh Lyman, vice-chefe de gabinete da Casa Branca na famosa série The West Wing (Os Homens do Presidente, em português). Mas a vida de Emanuel não foi a única a inspirar um filme. O seu irmão Ariel Emanuel, um agente milionário de estrelas de Hollywood, inspirou a criação de Ari Gold, personagem da série Entourage. Se ainda restassem dúvidas de que este antigo senador nasceu numa família incrivelmente bem-sucedida, bastaria acrescentar que o mais velho dos três irmãos, Ezekiel, é oncologista e um dos nomes sonantes da biotética norte-americana.

[Publicado a 8 de Outubro no Diário de Notícias]
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1 Comentário

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One response to “O regresso de ‘Rahmbo’ à cidade de Al capone

  1. Anónimo

    muito bom rapaz. voto nele!

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