O médium a quem os mortos ditavam poemas

Publicou mais de 400 livros, mas rejeitou a autoria de todos eles. António Nobre e Antero de Quental são dois dos 56 poetas já mortos a quem atribuiu os versos que escreveu.  Se fosse vivo, faria cem anos em 2010

Julho de 1979: um rapaz de 18 anos, acusado de matar o melhor amigo, é absolvido por um tribunal do estado de Goiás com base no depoimento do espírito do morto.

“José Divino nem ninguém teve culpa do meu caso. Brincávamos a respeito da possibilidade de se ferir alguém pela imagem do espelho e quando eu passava em frente da minha própria figura reflectida, sem que o momento fosse para qualquer movimento meu, o tiro me alcançou”. Foi esta a mensagem que chegou às mãos do juiz, depois de os pais do réu terem recorrido àquele que viria a ser considerado um dos maiores representantes da doutrina espírita na América do Sul: Chico Xavier. Apesar de ter sido duramente criticado pelos colegas de profissão, o magistrado que presidiu ao caso decidiu aceitar a carta psicografada pelo médium brasileiro como uma das provas da inocência do acusado.

Mas não foi por acaso que Francisco de Paula Cândido Xavier, que se fosse vivo teria feito cem anos a 2 de Abril, foi escolhido pela família para ajudar o filho. Na altura, já tinha entrado no mundo do espiritismo há mais de 50 anos. Atendia milhares de pessoas que desejavam falar com os seus familiares mortos, o seu nome era conhecido em todo o país. Um país que é considerado a maior nação espírita do mundo.

Dados publicados no último censo realizado no Brasil mostram que existem 2,3 milhões de seguidores do espiritismo – um conjunto de doutrinas que defendem a existência de espíritos e a possibilidade de existir comunicação com pessoas vivas através da mediunidade . Um número muito próximo dos 2,5 milhões indicados pela Federação Espírita Brasileira. Mas quando se fala em simpatizantes do espiritismo, as estimativas rondam os 30 milhões de pessoas.

“Louco”. Aos cinco anos era assim que Chico era chamado pelo pai, um vendedor de lotaria que, mais tarde, chegou a querer interná-lo num hospital depois de o ouvir dizer repetidamente que conversava com mortos e via fantasmas. Aconselhado por um padre de Pedro Leopoldo, município do estado de Minas Gerais onde nasceu Chico Xavier, o pai do médium decidiu empregá-lo numa fábrica de tecelagem, onde, com apenas nove anos, começou a trabalhar até de madrugada.

É pelo facto de a sua educação se ter limitado à instrução primária que muitos arregalam os olhos quando ficam a saber que Chico Xavier tem mais de 400 livros publicados (ao longo dos anos, os lucros têm sido doados a obras de caridade). A expressão de surpresa é ainda maior quando descobrem que o homem que mais contribuiu para o crescimento do espiritismo no Brasil afirma que nenhuma das obras é da sua autoria. Recorrendo à psicografia – descrita como a capacidade de alguns médiuns de escrever mensagens ditadas por espíritos -, o homem que diz ser “nada mais do que um cisco de Deus” assinou os seus trabalhos com o nome de mais de 56 poetas.

“Ah! Que sinto aqui saudades/ Das noites de São João/ Sonho, estrelas, claridades/ Cantigas do coração.” É a António Nobre que Chico Xavier atribui estas palavras, um excerto do poema “Quadras de um poeta morto”. Também Antero Quental, Guerra Junqueiro e João de Deus, nomes bem conhecidos da poesia portuguesa do século XIX, figuram na primeira obra publicada por Chico Xavier em 1932, Parnaso de Além-Túmulo.

As obras têm sido analisadas ao longo dos anos e, apesar de muitos o considerarem um charlatão, académicos reconhecem a qualidade dos poemas sem conseguir explicar o fenómeno. Num editorial, o jornal Estado de São Paulo chegou mesmo a afirmar que se os poemas não foram escritos por poetas mortos, então Chico Xavier “merecia, no mínimo, uma cadeira na Academia Brasileira de Letras”.

Mas nem sempre a imprensa esteve do seu lado. Em 1958, o título “desmascarado Chico Xavier pelo sobrinho e auxiliar” fez manchete no jornal O Globo, depois de Amauri ter afirmado que, “assim como o tio Chico”, tinha “uma enorme facilidade para fazer versos, imitando qualquer estilo de grandes autores”. Mais tarde, o pai do rapaz veio desculpar o filho, dizendo que este tinha problemas com álcool. Nessa altura, Chico Xavier decidiu deixar a sua terra natal e mudar-se para a cidade de Uberaba.

As mensagens que dizia receber, não eram apenas poéticas. Escreveu romances, crónicas, textos filosóficos e científicos e mais de dez mil cartas de espíritos para a suas famílias. Emmanuel, o seu espírito protector, acompanhou-o durante toda a vida e é um dos nomes que com mais frequência aparece como autor dos seus trabalhos. O primeiro contacto com Emmanuel terá sido aos 21 anos, altura em que o espírito lhe terá dito que devia seguir os ensinamentos de Jesus e de Allan Kardec – o francês que fundou a doutrina espírita.

Antes da sua morte, aos 92 anos, profetizou que iria morrer num dia de “grande celebração”. A 20 de Junho de 2002 teve uma paragem cardíaca enquanto milhões de brasileiros saíam à rua para festejar a vitória da selecção nacional no Campeonato do Mundo de Futebol.

[Perfil de Chico Xavier publicado  a 29 de Maio no Diário de Notícias]

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