Perseguido por Mugabe mas amado pelo povo

É alto o preço que tem pago por, há dez anos, ter decidido  integrar a oposição no Zimbabwe. Esteve preso, exilado, perdeu tudo. Esta semana foi ilibado de tentar matar o Presidente.

“O senhor Bennett não perdoou o Governo por ter adquirido a sua quinta, mas esquece-se de que os seus antepassados eram ladrões e assassinos”. Era a Roy Leslie Bennet, que há pouco tempo vira as suas terras serem invadidas e alguns dos seus funcionários torturados, que o ministro da Justiça do Zimbabwe, Patrick Chinamasa, se dirigia em 2004, durante uma sessão parlamentar. A reacção às declarações foi imediata: Bennett, eleito deputado quatro anos antes com uma maioria esmagadora na sua região, empurra Chinamasa, que acaba por cair, levando outro ministro a juntar-se à confusão.

À custa deste episódio, que mais tarde veio a considerar “ridículo”, este ex-polícia colonial, na altura um dos três deputados brancos que pertenciam à oposição, passou oito meses na cadeia longe da mulher e dos dois filhos, apesar de a lei indicar uma multa de baixo valor para “distúrbios no Parlamento”.

Os problemas com o Governo começaram em 2000, quando este bem-sucedido plantador de café se juntou ao Movimento para a Mu-dança Democrática (MDC), um partido composto por opositores do Presidente Robert Mugabe. Foi nas eleições desse ano que a sua boa relação com a comunidade do distrito de Chimanimani, maioritariamente negra, lhe garantiu um lugar na Assembleia. Comunidade essa que lhe chama “Pachedu”, uma palavra em língua shona que significa “um de nós”.

Mas o apoio dos eleitores não foi suficiente para o manter a salvo. A cor de pele e o negócio milionário que geria não jogaram a seu favor. Nesse ano iniciou-se no Zimbabwe uma reforma agrária que levou à expropriação e saque de mais de quatro mil fazendas de proprietários brancos, que tinham permanecido no país após a sua independência do Reino Unido, em 1980.

Até 2004, resistiu a intimidações e ameaças – frequentemente sofridas por membros do seu partido -, mas nesse ano acabou por ficar sem nada. “Levaram tudo o que tinha, até as minhas roupas e as roupas dos meus filhos. Mataram funcionários meus e violaram as suas filhas e mulheres”, afirma Bennett numa entrevista concedida no ano passado à revista Foreign Policy.

Parecia não haver mais nada que pudesse correr mal a este aliado do líder do MDC e actual primeiro-ministro, Morgan Tsvangirai. Mas em Fevereiro do ano passado voltou a ser preso quando se preparava para tomar posse como vice-ministro da Agricultura, tendo sido libertado um mês depois em liberdade condicional. A sua detenção ocorreu após ter estado durante mais de dois anos exilado na África do Sul. A sua fuga para o país vizinho deu-se em 2006, ao ser acusado de engendrar um plano para matar o Presidente e de ter encomendado armas de guerra a um traficante.

Até que na segunda-feira passada foi absolvido das acusações de “terrorismo”, “banditagem” e “sabotagem”. Este caso, que de acordo com o MDC se baseava em acusações “fictícias”, causou tensão no Governo de coligação acordado em 2008, no qual o poder é partilhado entre os rivais Tsvangirai e Mugabe.

Questionado sobre eventuais actos racistas do ZANU-PF, o partido do Presidente, este homem de 53 anos refere que os aliados de Mugabe estão “cheios de ódio” pela minoria branca. “Vemo-nos não como brancos, mas sim como zimbabwianos e, felizmente, a maior parte do povo vê-nos da mesma forma.” Não deve ser por acaso que uma activista dos direitos huma-nos zimbabwiana, Tambanavo Chamanyawi, diz num blogue que Bennett é “um homem negro encurralado num corpo de homem branco”.

[Perfil de Roy Bennett, publicado no Diário de Notícias a 15 de Maio de 2010]
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1 Comentário

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One response to “Perseguido por Mugabe mas amado pelo povo

  1. Bruno Monteiro

    Artigo muito interessante, não só pelo percurso de vida de Bennett mas também pela incursão no dia a dia da construção da democracia no Zimbabwe.
    Sem dúvida, uma vida tão fascinante quanto díficil, a de Roy Bennett, quase como o percurso do próprio Zimbabwe.
    Parabéns pelo artigo e pelo que ele significa! :)

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