Já foi “a sombra de Blair”, agora escreve livros

Durante anos foi considerado “o segundo homem mais poderoso” do Reino Unido. A saída do cargo de director de comunicação do Governo esteve envolta em polémica. Decidiu sair da política para se dedicar à literatura

Se há alguém a quem Tony Blair teve de agradecer por, em 1997, ter ido morar para o número 10 de Downing Street, essa pessoa foi Alastair Campbell. O homem que entrou no mundo do jornalismo a escrever textos eróticos para uma revista masculina, conseguiu convencer Rupert Murdoch, magnata da comunicação, a apoiar o partido trabalhista nas eleições desse ano. Seis semanas antes da votação, o jornal britânico The Sun, com uma circulação de quase 3 milhões de exemplares por dia, trocou as voltas aos Tories e anunciou em manchete o seu apoio ao Labour empurrando Blair para o cargo de primeiro-ministro.

A partir daí a sua influência cresceu tanto que chegou a ser considerado o segundo homem mais poderoso do Reino Unido, a “sombra” de Tony Blair. De chefe de gabinete de imprensa do Governo passou, em 2001, a director de comunicação e estratégia.

Contudo não é só a arte de comunicar que este nativo do Yorkshire, mas filho de escoceses, domina. Em Fevereiro, lançou o seu segundo romance, Maya, que é também o nome da protagonista deste thriller psicológico. Ela é uma estrela de cinema que tem de lidar com a fama e o assédio constante dos media. Também Campbell, uma figura bem conhecida entre os britânicos, tem tido uma relação complicada com os meios de comunicação: “ele que vive dos media, morre pelos media (depois volta à vida… e , muito provavelmente, morre outra vez)”, escrevia um colunista do Telegraph em Janeiro. O mesmo colunista que diz que “ninguém no seu perfeito juízo quer ter Alastair Campbell como seu inimigo.” Mas inimigos não devem faltar a este licenciado em línguas modernas pela Universidade de Cambridge.

Em 2003, ano em que se demitiu do cargo que ocupava, deixando de ser o “cão de ataque” do Labour, travou uma luta com a BBC, que o acusou de ter distorcido e exagerado o conteúdo de relatórios relativos à presença de armas de destruição maciça no Iraque. Relatórios que foram utilizados para justificar a invasão daquele país nesse mesmo ano. O escândalo conduziu ao suicídio de David Kelly, o perito de armas do Governo que forneceu as informações ao jornalista Andrew Gilligan. Campbell foi mais tarde ilibado das acusações, mas a relação deste ex-editor de política do Daily Mirror com os media tornou-se tempestuosa. Chegou mesmo a acusar ex-colegas de profissão de terem como única missão “desacreditar políticos”.

Foi quando ainda frequentava a redacção do Mirror que Campbell começou a ter problemas de alcoolismo e a enfrentar sucessivos episódios de depressão. Em 1986 foi detido num estado grave de embriaguez e hospitalizado em seguida. No documentário Cracking Up exibido em 2008, revela que, na altura, já não conseguia distinguir o que realmente via e ouvia daquilo que eram meras alucinações. Na opinião do seu médico, o problema residia na sua personalidade “obsessiva e perfeccionista” e ao stress extremo causado pelo trabalho.

O vício do álcool foi ultrapassado pouco tempo depois. Quanto ao trabalho, mesmo tendo deixado de ser o braço direito de Blair, continua a ajudar o partido e vai escrevendo discursos. As mensagens que deixa na sua página do Twitter estão povoadas de ataques aos conservadores e ao seu líder, David Cameron.

Mas há já alguns anos que começou a levar uma vida mais calma, com mais tempo para a mulher, Fiona Millar, e para os três filhos. O apoio da família foi um dos elementos chave da sua recuperação e talvez seja por isso que não se esqueceu de os incluir na dedicatória do seu primeiro romance, Está Tudo na Cabeça : “para um pai, uma mãe, uma companheira, três filhos e dois psiquiatras. Eles sabem quem são. Eu sei o que fizeram, e estou-lhes grato.”

[Perfil de Alastair Campbell publicado no Diário de Notícias a 18 de Abril de 2010]
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