O padre que é o ‘microfone de deus’ no Vaticano

Durante anos foi presença regular nos ecrãs de televisão. Há 30 anos que é pregador pessoal do Papa. O seu último sermão gerou polémica, tornando-se notícia um pouco por todo o mundo

Aos sábados, à hora do lanche, os italianos podiam recebê-lo em casa. Bastava sintonizar a televisão no canal um da RAI e lá estava ele: barba branca, óculos rectangulares e hábito castanho de monge franciscano capuchinho. Durante mais de dez anos soube tirar proveito do poder do pequeno ecrã para cativar crentes e não crentes. Na sua rubrica Razões de Esperança, do programa À Sua Imagem, explicava o Evangelho dominical. Quando a sua participação televisiva terminou, em Novembro passado, foi feita uma reportagem em sua honra: “Raniero Cantalamessa, O Microfone de Deus.”

Mas é pouco provável que todos estejam de acordo com esta designação. Durante o seu último sermão, o pregador apostólico do Vaticano comparou os ataques feitos à Igreja a propósito dos recentes escândalos de abusos sexuais de menores com “os aspectos mais vergonhosos do anti-semitismo”. Choveram críticas. O padre pediu desculpa. O mesmo padre que em 2006 defendeu que deveria ser feito um dia de jejum e de penitência por todas as crianças que sofreram abusos perpetrados por membros de instituições da Igreja Católica.

Foi em 1555 que Paulo IV criou o ofício que este doutor em teologia e literatura clássica agora desempenha. Passaram já 30 anos desde que foi nomeado por João Paulo II e começou a preparar temas de meditação que, todas as sextas–feiras do Advento e da Quaresma, propõe perante o Papa, cardeais, bispos e superiores de ordens religiosas.

Mas, antes de se dedicar em exclusivo à Cúria Romana, este italiano de Ascoli Piceno era um académico bem-sucedido. O quotidiano de Cantalamessa girava à volta dos livros, dos alunos e da universidade. Este padre, de 75 anos, foi professor de História das Origens Cristãs na Universidade Católica do Sagrado Coração de Milão nos anos 60, onde, mais tarde, se tornou director do Departamento de Ciências da Religião. Já editou dezenas de livros, como Virgindade, em 1995, ou O Canto do Espírito, em 1998.

Diz que descobriu a sua vocação quando tinha apenas 13 anos, durante o seu primeiro retiro, logo depois da II Guerra Mundial. Numa entrevista concedida em 2004 e publicada no seu site, revela que os pais, “simples, mas de uma grande fé”, morreram nos anos 70. Tem um sobrinho com três filhos e fala da família como algo “fundamental” na sua vida.

Este adepto do Movimento da Renovação Carismática diz, muitas vezes, que tem três amigos: o filósofo Kierkegaard, o poeta Péguy e a autora Angela de Foligno. Do outro lado da barricada estão Marx, Freud, Nietzsche ou Sartre, que costuma atacar nos seus sermões. Diz não perceber “como podem os cristãos aceitar tão prontamente este tipo de pensamento, sem saberem claramente tudo aquilo que significa”. Para o padre, “a nossa época será lembrada pela excelência da tecnologia, mas não pelo pensamento ou pela arte.”

O sermão polémico de Raniero (caixa)

“O recurso ao estereótipo, a passagem da responsabilidade pessoal para a colectividade, lembram-me os aspectos mais vergonhosos do anti-semitismo.” Estas palavras ouviram-se na Basílica de São Pedro na última Sexta-Feira Santa, dia 2. Raniero Cantalamessa, pregador pessoal do Papa, citava naquele momento “um amigo judeu”, de quem diz ter recebido uma carta que expressava “desgosto” pelo “ataque violento e concêntrico contra a Igreja, o Papa e todos os féis do mundo” a propósito das inúmeras denúncias que têm sido feitas sobre casos de abusos sexuais de menores no seio de instituições da Igreja Católica. A comparação das acusações que têm sido feitas ao Vaticano com as perseguições sofridas pelo povo judeu causaram indignação um pouco por todo o mundo, especialmente no seio da comunidade judaica.
Raniero Cantalamessa veio a público pedir desculpa aos judeus e às vítimas de pedofilia e afirmar que o Papa desconhecia o conteúdo do seu sermão até este ser lido.

[Perfil de Raniero Cantalamessa publicado a 10 de Abril no Diário de Notícias]
Anúncios

2 comentários

Filed under Portfólio

2 responses to “O padre que é o ‘microfone de deus’ no Vaticano

  1. Filipa.

    Estes “perfis” são escritos por ti..?

    Beijinho

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s