Wien Südbahnhof, linha 2a

Viena, Janeiro de 2009

“(…)Em 1989, Viena era, por todas estas razões, um bom local para “pensar”  a Europa. A Áustria encarnava todos os atributos algo presunçosos da Europa Ocidental do pós-guerra: a prosperidade capitalista sustentada por um rico Estado-providência, a paz social garantida por empregos e complementos salariais generosamente distribuídos por todos os principais grupos sociais e pelos partidos políticos, e a segurança externa garantida implicitamente pelo guarda-chuva nuclear ocidental, embora a Áustria permanecesse complacentemente “neutral”. Entretanto, para lá dos rios Leitha e Danúbio, a apenas alguns quilómetros para leste, ficava a “outra” Europa, a da pobreza sombria e dos agentes da polícia secreta. A distância que separava as duas Europas era rigorosamente sintetizada no evidente contraste entre a estação de Westbahnhof, impulsiva e enérgica, com homens de negócios e turistas a entrar em comboios-expresso modernos e brilhantes para Munique, Zurique, ou Paris, e a de Südbahnhof, lúgubre e nada convidativa, uma montra miserável, sombria, gasta e ameaçadora de estrangeiros pobres que desciam de comboios sujos e velhos oriundos de Budapeste ou Belgrado.

Tal como as duas principais estações de caminho-de-ferro reflectiam involuntariamente o cisma geográfico da Europa – uma delas olhando optimista e proveitosamente para ocidente, a outra cedendo negligentemente à vocação oriental de Viena -, também as ruas da capital austríaca comprovavam o silêncio abissal que separava o presente tranquilo da Europa do seu passado desconfortável. Os edifícios imponentes e assertivos que se alinhavam na grande Ringstrasse eram uma recordação da vocação  imperial de outrora – embora o próprio anel circular parecesse demasiado grandioso para servir de artéria quotidiana para ser utilizada pelos utentes dos transportes públicos de uma capital europeia de média dimensão – e a cidade orgulhava-se, com razão, dos seus edifícios públicos e dos seus espaços cívicos. De facto, Viena era muito dada a invocar as velhas glórias. Já no que dizia respeito ao passado mais recente, era manifestamente mais reservada.”

Tony Judt in Pós Guerra – História da Europa desde 1945 (3ª edição, Janeiro 2009) – o bold é da minha autoria e, já agora, apesar de ainda só ter lido 50 de quase mil páginas, parece-me altamente recomendável a qualquer pessoa que se interesse pela História da Europa.

[Quanto a mim, parece-me que a  “recordação da vocação imperial” continua a pairar em cada esquina de Innere Stadt. ]

Nota: Südbahnhof está fechada desde Dezembro de 2009 e vai ser demolida durante este ano. Desde 2007 que está a ser construída uma nova estação – Wien Hauptbahnhof (“estação central de Viena”).

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