E ainda há quem diga que a vida acaba aos sessenta

No Centro de Dia do Charquinho ter mais de sessenta anos não significa que a energia para novos desafios chegou ao fim. As várias actividades desenvolvidas pelos reformados de Benfica são exemplo disso. Muitos gostam de relembrar histórias do passado, enquanto fazem de tudo para não deixar o presente escapar por entre os dedos

Catarina Reis da Fonseca

No alpendre fala-se da vida, do passado , do melhor golo da última jornada ou acusam-se os companheiros de jogo de cartas de estarem a fazer batota. É uma casa em madeira que aparece por entre o verde de algumas árvores que a rodeiam. Os móveis também em madeira. Na sala de estar algumas poltronas espalhadas aqui e ali. Ao lado, outra sala, onde estão todos sentados quatro a quatro e acabam de tomar café . Vêm todos os dias. Para a maior parte, as refeições em casa seriam partilhadas com cadeiras já há muito vazias. Aqui a luz é morna, alaranjada e todos os lugares estão ocupados.

Não estamos numa casa de campo, nem numa estância de férias. Estamos em Lisboa, no Centro de Dia do Charquinho, em Benfica. Para quem passa por perto pela primeira primeira vez, não percebe bem. A casa, que se assemelha a uma cabana, surge um pouco fora de contexto; entre prédios altos, colados uns aos outros, num bairro igual a tantos outros bairros camarários do país. Um dia já existiu, neste mesmo sítio, uma escola primária que depois ficou ao abadono e se tornou refúgio para toxicodependentes, até que foi demolida. Em 1999 o terreno foi aproveitado pela Asssociação de Reformados de Benfica para construir um novo espaço.

Elas sentam-se juntas e quando a chávena está vazia e muitos já saíram, ficam a jogar dominó ou a pôr a conversa em dia. Eles saem todos para o alpendre apesar do tempo cinzento e da chuva intermitente. Por esta altura, os dias de Verão já foram todos riscados do calendário. Sentam-se à volta de uma mesa, atentos ao baralho de cartas; os jogadores e os que simplesmente assistem de pé como se se tratasse de um jogo decisivo na vida de cada um.

“Alguns ainda têm mulher, mas o casamento já acabou há muito tempo, então vêm para aqui e só voltam a casa quando o centro fecha, às seis horas”. Chama-se Isabel Ramos e está na direccção desde que o centro abriu, há quase dez anos. Fala muito, fala depressa. Gesticula com movimentos rápidos e o ar jovem e enérgico deixa adivinhar que deve ter pouco mais de trinta e cinco anos. “Conheço todos os utentes pelo nome e sei onde mora a maior parte deles”. Enumera algumas actividades desenvolvidas pelo centro, que foge ao conceito de muitas das instituições deste tipo, em que  estar em frente a uma televisão um dia inteiro é a ocupação mais frequente. Existem os tradicionais jogos de mesa, como o xadrez, as damas , o dominó. “As senhoras jogam cada vez mais, dantes não era uma actividade que gostassem muito”. Existe o grupo folclórico, o baile duas vezes por mês, as excursões, as colagens, a ginástica, a pintura, os arraiolos.

Recomeçar do zero

“Uma salva de palmas p’ra nós”. A professora desliga o rádio; as alunas, todas em fato de treino, fazem os últimos alongamentos e saem. Encontram-se duas vezes por semana no alpendre para tentar conservar a agilidade, para conservar o orgulho em ter mais, ou muito mais, de 65 anos e continuarem com a energia de outros tempos.

Lá dentro a Dona Conceição já deve estar à espera. As últimas duas vezes em que combinámos conversar foram adiadas. “Tive que ir com o meu marido a consultas médicas. Tivemos um acidente de carro há uns anos e depois de ser operado à coluna deixou de ter sensibilidade nas pernas.” Só conta isto mais tarde, a meio da conversa. Estava com um ar desconfiado ao princípio, sem muita vontade de falar. Um aperto de mão, lábios cor-de-rosa e calças verde alface. Diferente da maior parte das senhoras aqui, vestidas de saia e casaco. Mas não é só a roupa que é diferente, ao contrário da maior parte dos utentes, Conceição não gosta de passar o seu tempo no centro. “Só venho cá comer, não gosto de fofoquices”. Quando pergunto se sabe das actividades que o centro promove, diz que acha que não se faz nada.”É tudo muito morto”. Dou exemplos como a pintura e os trabalhos em estanho e parece que muda de ideias. “Pois é, pois é, já estou muito esquecida, fazem aí coisas muito bonitas.” Mas  diz que não tem perfil para estar ali sentada a ler um romance ou a pintar. A vida dela é lá fora, tem outras ocupações. Faz figuração em programas de televisão, vai a todos os canais. “A reforma é pequena e uma pessoa ainda se diverte. Daqui a pouco vou para o “Prós e Contras”, diz enquanto olha para o relógio. Já é a segunda vez que olha para o relógio, secalhar tem pressa. Queria saber como foi parar aos programas de televisão, como é que começou a bater palmas em directo, mas a resposta é hesitante, acha que foi através de uma amiga, também já não se lembra bem.

Mas a vida de Conceição podia ter sido diferente e neste momento não devia estar aqui, nem sequer devia estar em Portugal a dizer que ao jantar, umas vezes come outras não, depende do que houver. Devia estar em Luanda, onde era “uma senhora”. Com uma expressão difícil de decifrar, diz que “a vida lá era um sonho”. O negócio prosperava antes de chegar a guerra. Depois foram os raptos, os assassinatos e as violações. O discurso torna-se mais intermitente. “Tudo o que vi, e vi muita coisa, prefiro deixar por lá, não gosto de falar sobre Angola.” Deixa por lá tudo o que viu e tudo o que teve. A vida que construiu escapou-lhe depois de uma vinda a Portugal, já em tempo de guerra. “Era para vir só por dois ou três dias a Portugal e quando tentei voltar a Luanda já não me deixaram”. O quê que lhe restou de tudo o que tinha? “Nada, de África só trouxe um filho, o meu único filho”.

O resto da história até chegar ao Bairro do Charquinho não é muito difícil de explicar. Quando se viu em Lisboa, sem nada, começou tudo do zero, pediu crédito ao banco e abriu um restaurante em Benfica, na tentativa de construir uma vida semelhante à que tinha. Mas já não foi assim. “A minha vida de sonho acabou. Roubaram-me debaixo da bandeira portuguesa e hoje sou uma pessoa revoltada por causa disso. O que ganhei foi à custa do meu trabalho e do meu marido, nunca roubei ninguém, mas a mim tiraram-me tudo”. Apressa-se em mudar de assunto e diz qualquer coisa sobre o centro. Depois põe um sorriso que ainda não tinha visto desde o início da nossa conversa e diz “Mas ninguém diria que tenho 81 anos, pois não? Não me faço velha. Isto são tudo histórias passadas, eu gosto é de conversar, de idealizar, de ir com o meu marido a todo o lado. Como é o ditado? Onde está o pião…não não, já sei!Não há pião sem baraça.” Olha mais uma vez para o relógio e só no fim da nossa conversa percebo porquê. É que o pião está lá fora à espera no alpendre. “Oh Lopes, vamos embora!”.

“Os meus problemas ficam todos no tapete”

Conceição é uma excepção à regra no centro. A maior parte dos utentes gosta das actividades, que escolhem consoante as capacidades que ainda têm. À quarta- feira podem aprender a fazer arraiolos com a professora Maria Clara. É na sala de estar do centro que estão sete ou oito senhoras, com as telas e os rolos de lã coloridos espalhados pelas mesas. Os arraiolos fazem por gosto, não vendem; guardam ou oferecem aos amigos e à família. A Dona Luz já não ouve muito bem, mas sabe que se está a falar dos trabalhos e diz que “é pena que não haja poder de compra. As pessoas não têm dinheiro para comprar estas coisas. São muitas horas de trabalho e fica muito caro. Mas faz-se por gosto, isto para mim é um vício”.  Mas a actividade mais desenvolvida na aula, para além do frenesim das agulhas, é sem dúvida pôr a conversa em dia. Falam de tudo: da família, “dos burlões que andam para aí”, de quando se mudaram para Lisboa quando eram novas. A Dona Alexandrina pensava que “vinha para uma cidade muito rica”. “No fim, cheguei aqui, queria lavar a loiça e nem sabão tinha. Estava sempre metida em casa, ninguém fala com ninguém nesta cidade.” Alexandrina é a aluna mais recente e, como todas as outras alunas, não sabia fazer arraiolos antes de se juntar ao grupo. Mas a professora apressa-se a dizer que está aqui “é para ensinar”. Maria Clara fala mais do que todas as alunas juntas, salta de assunto em assunto sem quase se aperceber disso. É apaixonada por aquilo que faz e isso reflecte-se no interesse das suas alunas. Mas nem todos participam nas actividades do Centro. “Umas não têm feitio para se juntar com outras, depois há aquelas que não têm dinheiro para participar ”, explica a professora. Os materiais usados têm que ser comprados pelas próprias pessoas e há muitas que não podem pagar mais do que as refeições e acabam por não aderir. Fazer arraiolos, combinar as cores, contar as casas, e mover a agulha p’ra lá e p’ra cá, concede a todas duas horas por semana em que não pensam nos problemas que têm em casa. Maria do Carmo Moco, uma das alunas mais antigas, deixa escapar um desabafo, “no ínicio da aula estava de muito mau humor, parecia que estava a correr tudo mal, mas agora estou mais leve. Os meus problemas ficam todos no tapete”.  Maria Clara continua a preencher o seu tapete com cores. “Há velhos novos e novos que já são muito velhos. Nós somos os primeiros”.

(Reportagem realizada no âmbito da cadeira “Ateliê de Reportagem, Entrevista e Edição de Imprensa”, do 1º ano de mestrado em jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa, leccionada por Paulo Moura)

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