Um grande desafio para a autora das ‘pequenas coisas’

Um livro e um prémio deram-lhe voz a nível internacional. Rebeldes maoístas querem-na no centro das negociações com o Governo.

Vendia garrafas de cerveja vazias para sobreviver. Foi actriz, instrutora de aeróbica e estudou para ser arquitecta. Quando saiu de casa, aos 16 anos, não imaginava que aos 35 estaria em Londres a receber o mais prestigiado prémio literário britânico. Em 1997, o Man Booker Prize catapultou Arundhati Roy para a fama.

Tinha um computador novo e gostava da ideia de escrever nele. É esta a simples justificação que dá para ter começado O Deus das Pequenas Coisas, o seu primeiro e único romance, traduzido em 16 línguas. Com o sucesso do livro, alcançou reconhecimento internacional e decidiu tirar proveito da sua influência, tornando-se uma activista de causas sociais e políticas. Filha de um plantador de chá e de uma professora, foi, na semana passada, convidada para mediar o conflito entre rebeldes maoístas e o Governo indiano. Em resposta, Roy, conhecida pelas suas campanhas contra as corporações privadas e a violência dos Estados, propôs ajudar como “observadora independente” das conversações de paz.

Admirada por uns e criticada por outros pelas suas afirmações polémicas, esta cristã que viveu toda a sua infância em Kerala, no Sudoeste indiano, luta em várias frentes. Defende a independência de Caxemira, vê a globalização como uma forma de imperialismo e critica ferozmente a guerra no Afeganistão e no Iraque. Enquanto esteve no poder, George Bush foi o seu ódio de estimação. Numa crónica publicada no The Guardian em 2006, acusa o então Presidente americano de ser “o pesadelo do mundo tornado realidade”. Três anos antes, durante um discurso em Nova Iorque, não poupou críticas ao conflito no Iraque, chamando os Estados Unidos de “Império Americano” e apontando para uma crise actual dos valores democráticos. “A democracia é a prostituta do mundo livre, disposta a produzir- -se e depois despir-se, disposta a satisfazer uma enorme variedade de gostos e disponível para ser usada e abusada à vontade.”

A carreira de argumentista, à qual ainda hoje se dedica, começou com um passeio de bicicleta em Deli. Pradip Krishen, o primeiro nome a figurar nos agradecimentos do seu romance como sendo o seu “crítico mais exigente”, viu-a passar e decidiu que a queria no elenco de um dos seus filmes. O realizador acabou por se tornar no seu segundo e actual marido. Depois da experiência como actriz, começou a escrever. Dá ao argumento de In Which Annie Gives It Those Ones (1989) um tom autobiográfico, inspirando-se nos seus tempos de faculdade na Escola de Planeamento e Arquitectura de Deli.

O primeiro casamento com um colega de faculdade acabou ao fim de quatro anos. Interromperam-se os estudos para vender bolos a turistas nas praias de Goa, mas sete meses depois Roy estava de volta a Nova Deli sozinha. Agora, já não vai para a praia vender bolos nem sobrevive à custa de garrafas vazias. Escreve, escreve muito. Em 2007 prometeu um novo romance, mas é às causas que defende que tem dado atenção.

O “seu Deus” pode ser o Deus das Pequenas Coisas, mas é por uma causa enorme que Roy disse estar disposta a lutar: a paz na Índia.

(Perfil de Arundhati Roy publicado no Diário de Notícias (DN Gente) a 13 de Março de 2010)
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3 comentários

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3 responses to “Um grande desafio para a autora das ‘pequenas coisas’

  1. Pingback: Pecado capital « Impressões

  2. Andreia

    Muito bem escrito :)

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