Luís dos Reis

Já viu muita coisa na vida. Nascer em 1926 dá direito a ter muitas estórias e muita História para contar. É isso mesmo que o senhor Luís faz quando, de tempos a tempos, tem os netos a jantar lá em casa – conta.  Há sempre qualquer memória que vem à baila; uma cantilena dos tempos da juventude ou o vizinho, dono da mercearia, que misturava água no aguardente na esperança de que os clientes não notassem. A estória pode ser repetida, mas ninguém se importa, ou melhor, toda a gente se ri como se a estivesse a ouvir pela primeira vez.

Na sala de estar  está o Luís com 18 anos, dentro de uma moldura. Tem a farda da tropa. Diz que fez a tropa em Lisboa, que se lembra bem da capital. A fotografia a preto e branco não diz a cor dos olhos. Mas são claros, dá p’ra ver que são claros. Ali sentado na mesa da sala de jantar, são azuis. Passados mais de 60 anos desde o dia daquela fotografia, a pele não é a mesma, está gasta pelo sol, pelo trabalho, e por alegrias e tristezas. Mas os olhos são os mesmos, o mesmo azul.

Não me lembro da última vez que o vi. Lembro-me de lhe cantarmos os parabéns com as velas metidas num pão-de-ló e as luzes apagadas. Só a televisão é que ainda iluminava a sala. Fez 83 anos no dia 31 de Agosto diz ele; 1 de Setembro diz a certidão de nascimento.  De certeza que estava na RTP, o meu avô só via a RTP.

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1 Comentário

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One response to “Luís dos Reis

  1. As lembranças são a coisa mais importante que guardamos :)

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