O Adeus às Armas (1924)

– (…) Vais ser condecorado. Querem dar-te a medaglia d’argento, mas talvez só se possa arranjar a de bronze.

– Para quê?

– Porque tu estás gravemente ferido. Dizem que, se provares ter cometido um ato heróico, se arranja a de prata. Não sendo assim, terá de ser a de bronze. Diz exatamente como as coisas se passaram. Cometeste algum ato de heroísmo?

– Não – disse eu. – Fui pelos ares enquanto estava a comer queijo.

Ernest Hemingway

Federico Babina

Descobri Federico Babina enquanto, distraidamente, fazia scroll no Facebook. Porque nem tudo nas redes sociais é mau, nem tudo nas redes sociais é cuscuvilhice sobre vida alheia, nem tudo nas redes sociais são fake news ou premonições do apocalipse. E não querendo fugir ainda mais ao tópico que me levou a escrever este texto, parece-me, no entanto, que o fim do Facebook poderá estar próximo se não houver um reposicionamento rápido ou alguma inovação que lhe devolva o brilho que em tempos teve.

De qualquer forma, o tema aqui é Federico Babina, um arquiteto e designer gráfico italiano que, em “Archist”, uma das suas séries criativas, faz uma reinterpretação do trabalho de pintores consagrados, aplicando diferentes estilos de pintura a construções imaginadas. De Mondrian a Picasso, de Dali a Pollock, são imensos os artistas a quem Babina deu nova vida. No seu trabalho, descontrói a arquitetura e transforma-a em desenhos mais ou menos abstratos, mas vai muito além disso. Ora integrando estilos de pintores famosos, ora transformando uma história como Pinóquio numa casa (uma casa de nariz pontiagudo note-se), ora redesenhando obras de arquitetura icónicas de filmes como North by Northwestern ou fazendo algo aparentemente simples como transformar a Torre Eiffel numa girafa. Babina usa também as letras e as palavras para fazer construções, num exercício a que chama caligramas arquitetónicos. Esta reinterpretação muito peculiar do mundo, com um sentido estético apurado, é algo que não se encontra todos os dias. Demonstra uma capacidade muito especial de traduzir sonhos em imagens, de ir além do óbvio.

Babina não acredita em inspiração. Em 2015, em entrevista ao Público, dizia o seguinte: “(…) As ideias estão lá à nossa espera, o problema é que muitas vezes não somos capazes de as ver. Tento observar as coisas de um ponto de vista diferente: ver o mundo de pernas para o ar pode oferecer muitas ideias criativas e acordar-nos de uma espécie de “sono de visão”.

Conversations with friends (2017)

I didn’t exactly start praying that weekend after the book launch, but I did look up online how to meditate. It mainly involved closing my eyes and breathing, while also calmly letting go of passing thoughts. I focused on my breathing. You were allowed to do that. You could even count the breaths. And then at the end you could just think about anything you wanted, but after five minutes of counting my breath, I didn’t want to think. My mind felt empty, like the inside of a glass jar. I was appropriating my fear of total disappearence as a spiritual practice. I was inhabiting disappearence as something that could reveal and inform, rather than totalise and annihilate. A lot of the time my meditation was unsuccessful.

Sally Rooney

Madrugada

A madrugada entra-me pelos olhos e não me deixa dormir. São cinco horas e ainda não há sinal daquela claridade indecisa que anuncia o nascer do sol. Dizem por aí que à medida que vamos ficando mais velhos precisamos de menos horas de sono. Podem dizer o que quiserem, mas eu sei que continuo a precisar de todas elas. Se ao menos a madrugada não teimasse em manter-me acordada. Se, pelo menos, não fizesse tanto barulho. Ainda gostava de saber por que raio a madrugada faz tanto barulho. Não imaginam o ruído ensurdecedor das memórias do passado a chocar contra as expectativas do futuro. E o presente ali, mudo, a tentar perceber o que tem de fazer para conseguir alguma paz, algum silêncio.

Rimar (tentativa #1)

Quero viver para sempre
Quero desaparecer agora
Quero ser transparente
Quero ver-me do lado de fora

Quero tudo
Não quero nada
Quero existir
Quero desistir

Quero contradição
Quero coerência
Quero ilusão
Quero complacência

Quero tentar gostar de rimar
Talvez um dia o consiga fazer
Quero versos a dançar
Sem que nada os possa deter

.:Catarina

Words to live by

Love is patient, love is kind.
It does not envy, it does not boast, it is not proud.
It does not dishonor others, it is not self-seeking,
It is not easily angered, it keeps no record of wrongs.
Love does not delight in evil but rejoices with the truth.
It always protects, always trusts, always hopes, always perseveres.
Love never fails.

1 Corinthians 13:4-8

Normal People (2018)

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Connell’s initial assessment of the reading was not disproven. It was culture as class performance, literature fetishized for its ability to take educated people on false emotional journeys, so that they might afterward feel superior to the uneducated people whose emotional journeys they liked to read about. Even if the writer himself was a good person, and even if his book really was insightful, all books were ultimately marketed as status symbols, and all writers participated to some degree in this marketing. Presumably this was how the industry made money. Literature, in the way it appeared at these public readings, had no potential as a form of resistance to anything. Still, Connell went home that night and read over some notes he had been making for a new story, and he felt the old beat of pleasure inside his body, like watching a perfect goal, like the rustling movement of light through leaves, a phrase of music from the window of a passing car. Life offers up these moments of joy despite everything

 Sally Rooney

Impressões sonoras (37)

Harvest your love, harvest your love, for me
I’ll lay it down, I’ll lay it down, slowly
Put your hands on my face
At an orderly pace
I see
Put your love in the sand
As it makes no demands
I believe, I believe

Tash Sultana [One of the best artists out there. One of the best concerts of my entire life. Can’t wait for the second round in 2021.]

Impressões sonoras (36)

 

Sempre sonhei ter uma máquina de escrever. O som das teclas a bater como um coração desgovernado, a campainha a marcar um compasso imaginário.

Há treze anos, quando vi Atonement pela primeira vez, descobri também Dario Marianelli, que oiço até hoje e se que tornou num dos meus compositores favoritos. Na banda sonora que criou para Atonement, e que na altura acabou por arrecadar um Óscar, Marianelli usa precisamente a máquina de escrever como elemento diferenciador e que acaba por surgir como um instrumento musical por direito próprio.

Liberdade

São João da Caparica | 21.06.2020

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner

Revelation

It is one of the secrets in that change of mental poise which has been fitly named conversion, that to many among us neither heaven nor earth has any revelation till some personality touches theirs with a peculiar influence, subduing them into receptiveness.

George Eliot, Daniel Deronda

Hollywood (2020)

Raymond Ainsley: Sometimes I think folks in this town don’t really understand the power they have. Movies don’t just show us how the world is, they show us how the world can be. If we change the way that movies are made — you take a chance and you make a different kind of story, I think you can change the world.

Coisas que não há que há

Uma coisa que me põe triste
é que não exista o que não existe.
(Se é que não existe, e isto é que existe!)
Há tantas coisas bonitas que não há:
coisas que não há, gente que não há,
bichos que já houve e já não há,
livros por ler, coisas por ver,
feitos desfeitos, outros feitos por fazer,
pessoas tão boas ainda por nascer
e outras que morreram há tanto tempo!
Tantas lembranças de que não me lembro,
sítios que não sei, invenções que não invento,
gente de vidro e de vento, países por achar,
paisagens, plantas, jardins de ar,
tudo o que eu nem posso imaginar
porque se o imaginasse já existia
embora num sítio onde só eu ia…

Manuel António Pina

Impressões sonoras (35)

Há oito anos que Fiona Apple não lançava um álbum. Na verdade, desde a sua estreia com Tidal em 1996, este é o quinto disco que Fiona produz em 24 anos. Os fãs desesperam, mas cada novo álbum traz inovação e uma Fiona  dedicada a novos temas. Transversal a todos os trabalhos da cantora continua a ser, sem dúvida, a voz inconfudível e a qualidade inegável das letras. Talvez Extraordinary Machine vá ser para sempre o meu álbum preferido, mas provemos agora um bocadinho de Fetch the Bolt Cutters.

 

 

Encomendas com histórias dentro

Na semana passada chegaram as encomendas que fiz no Dia Mundial do Livro. Custa-me não entrar numa livraria há tanto tempo, mas dizem as (boas) notícias que começam hoje a reabrir, assim como quase todo o pequeno comércio.

Entre outros, recebi O Amor nos Tempos de Cólera, de García Marquez. Na verdade, acho que já tenho o livro, mas estará em prolongado descanso algures na casa dos meus pais. Sem liberdade para visitas ou grandes movimentações em tempo de Covid-19 fica mais difícil confirmar. Por outro lado, tenho a certeza absoluta de que tenho,  li e adorei Crónicas de uma Morte Anunciada e também de que tenho, li e gostei q.b. de Cem Anos de Solidão.

Isto tudo para chegar a outro ponto. Uma coincidência engraçada. Ora, em vez de ter pegado num dos livros novos que recebi, decidi, neste fim de semana prolongado, terminar Diary of a Bookseller, do muito engraçado e algo cáustico Shaun Bythell. Tinha comprado o livro antes da minha viagem à Escócia e não tinha terminado.

A páginas tantas, Bythell, escocês e dono de uma livraria na pacata Wigtown, escreve o seguinte:

Customer came in at 4 p.m. with a box of modern paperback fiction which included a copy of José Saramago’s brilliant book Blindness and a copy of Pereira Mantains, by Antonio Tabucchi, both of which had been given to me by an Italian friend who was horrified by my ignorance of contemporary European fiction. Pereira Mantains was a book I greatly enjoyed, but Blindness was astonishing. There are few other books in which I have felt so completely immersed and – ironically – visualised so clearly. The filth and pathetic chaos of a world in which everyone has gone blind, the fragility of the social contract and the rapid disintegration of society following the loss of a single sense are so vividly painted by Saramago that it draws the reader in almost as a participant in the story rather than an observer and – like Hogg’s Justified Sinner – spits you out at the end asking more questions of the world around you.

E onde é que está a graça disto? Bem, Ensaio sobre a Cegueira (que, shame on me, nunca li) e Afirma Pereira foram precisamente dois dos livros que comprei nesta última encomenda. E se este livro de Saramago for tão bom como Intermitências da Morte, entrará sem grande dificuldade na lista dos meus livros favoritos.

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Debussy

Há uma vizinha que toca piano. Nunca consegui perceber em que andar vive nem porque passará largas temporadas sem tocar. Ou será que sou eu que nem sempre consigo ouvi-la?

O som, invariavelmente abafado, parece entrar pela lareira e entranha-se pela casa. Ontem, eram quase dez e meia quando se ouviu Claire de Lune.

 

Primeiro amor

Porque estás sempre tão triste? perguntou.

Triste!, exclamou ela, olhando para ele com os seus olhos castanhos, admirados, maravilhosos. 

Sim disse ele. Tu andas sempre, sempre triste.

Não, nem um pouco! exclamou ela.

Até a tua alegria parece uma chama ateada pela tristeza insistiu ele. Nunca estás alegre, nem sequer normal. 

Pois não disse ela pensativa. Dá que pensar…Porque seria…?

Porque tu não és…porque tu és diferente por dentro…como um pinheiro…e depois incendeias-te…mas não és uma árvore qualquer, com folhas irrequietas e alegres..

Paul emaranhou-se no seu próprio discurso; mas ela bebia as suas palavras e ele teve uma sensação estranha e estimulante, como se os seus sentimentos fossem novos. Ela chegava-lhe tão perto da alma. Estranho estímulo este.

Excerto de Filhos e Amantes, D.H. Lawrence, 1913

 

 

 

 

No Man is an Island

No man is an island entire of itself; every man
is a piece of the continent, a part of the main;
if a clod be washed away by the sea, Europe
is the less, as well as if a promontory were, as
well as any manner of thy friends or of thine
own were; any man’s death diminishes me,
because I am involved in mankind.
And therefore never send to know for whom
the bell tolls; it tolls for thee.

John Donne

Meditation XVII, Devotions upon Emergent Occasions (1624)

Impressões sonoras (33)

Days like this
I don’t know what
To do with myself
All day and all night
I wander the halls
Along the walls and
Under my breath
I say to myself
I need fuel
To take flight
And there’s too
Much going on
But it’s calm under
The waves
In the blue of my oblivion

Fiona Apple

Em todas as ruas te encontro

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Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto    tão perto    tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário Cesariny, em “Pena Capital”

Séries de ontem, de hoje, de sempre

O The New York Times faz serviço público à séria.  E não, não vou falar do último escândalo na Casa Branca, nem de nenhum plano estrambólico que Trump ande a congeminar debaixo da sua secretária na Sala Oval. Só queria mesmo partilhar esta lista das vinte melhores séries de sempre desde ‘Os Sopranos’, que vem mesmo a calhar numa altura em que vivemos, mais coisa menos coisa, como pequenos eremitas.

Este artigo foi publicado há mais de um ano, mas acabei por descobri-lo agora graças a outra iniciativa do NYT: os briefings matinais de subscrição gratuita. Neste momento, a minha secção favorita desta newsletter acaba por ser a que vem no final de tudo e que se chama “Now, a break from the news”. E um break vem mesmo a calhar porque as notícias neste momento são monotemáticas e engolem a sanidade mental de qualquer um.

Mas voltando a ponto inicial. A primeira série a ser referida nesta lista é The West Wing, que tem um lugar muito especial no meu coraçãozinho. E se a mim, às vezes, me custa explicar este amor, isso não acontece com Margaret Lyons, autora da crítica a West Wing. Margaret escreve precisamente aquilo que qualquer fã de West Wing gostaria de ter dito sobre esta criação de Aaron Sorkin:

People complain that it’s a smug fantasy. But I love a fantasy where everyone is smart, no one wants a forever war and integrity exists. I love a fantasy where characters have such a strong sense of purpose it rubs off on you just from watching them. My fantasy is that people are trustworthy, and that when they let me down, they notice and they’re sorry. Let’s all fantasize about having ethics — wouldn’t that be such a wild world? Keep your swords-and-magic epics. I’ve got the Bartlet administration to dream about.

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Para além de West Wing, há séries extraordinárias nesta lista e, claro, outras que, a meu ver, são medianas. No fundo, é uma lista que responde a todo o tipo de gostos no que diz respeito a séries de televisão e dá uma ideia daquilo que se pode esperar sobre cada uma delas. É só escolher.

 

Porque as flores também dançam

 

Ouvir Einaudi para celebrar as flores que imagino a dançar. Ouvir Einaudi para agradecer aos dois pássaros pretos de bico cor de laranja que ontem me visitaram na varanda e ao céu por todos os dias se mostrar azul.  Ouvir Einaudi para poder sentir o início da Primavera.

Acróstico III

Quantos passos errados demos para chegar até aqui

Usámos todas as vidas de que dispunhamos

Atravessámos todas as fronteiras do aceitável

Regateámos com o tempo sabendo que o tempo não negoceia

Entrámos em portas que não eram as nossas

Negámos a nossa mortalidade

Traçámos planos de décadas para alcançar um conceito de felicidade

Encarámos com soberba tudo aquilo que tínhamos no agora

Nunca soubemos sequer olhar para o que tínhamos no agora

Amanhã pediremos novamente o regresso ao agora do passado

 

.:Catarina

‘The Moment of Lift’

Tenho à cabeceira vários livros sem correlação entre si. Cinco Esquinas de Vargas Llosa, uma tradução para inglês do Livro do Desassossego que vou lendo aos bochechos, Filhos e Amantes de D.H. Lawrence e, mais recentemente, o livro de Melinda Gates The Moment of Lift: How Empowering Women Changes the World. 

Já há algum tempo que ouvi falar do trabalho humanitário desenvolvido por Bill e Melinda Gates, mas só quando vi o documentário do Netflix Inside Bill’s Brain: Decoding Bill Gates é que fiquei a ter uma perceção mais clara daquilo que a fundação gerida pelo casal efetivamente faz, nomeadamente vários projetos com impacto a nível global ligados a saneamento básico, à luta pela erradicação da poliomielite e à busca por fontes de energias alternativas.

Como seguidora de Melinda Gates no LinkedIn vou acompanhando as inúmeras publicações interessantes que partilha e o livro The Moment of Lift vem reforçar a minha admiração pelo trabalho que tem desenvolvido para ajudar mulheres de todo o mundo a tomarem as rédeas da sua própria vida, tanto a nível pessoal como profissional.

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Do quarto andar

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Na maior parte dos dias não consigo ver para além do óbvio.

Vejo azul de rio, azul de céu e branco de cal.

Vejo as abelhas. Tento descobrir onde vivem.

Vejo ao longe os turistas no topo do Panteão e lembro-me de que nunca entrei.

Vejo os terraços e pergunto-me porque estarão sempre vazios.

Vejo a vizinha do prédio da frente a seguir atentamente os movimentos da vizinha do rés-do-chão, que estende a roupa sem perceber que há duas pessoas a olhar para ela. Talvez haja alguém que me vê a observar as duas.

Não vejo os autocarros, mas oiço-os ao longe e imagino pessoas em movimento.

Vejo os dias de Verão em que durmo de janelas abertas.

Vejo os muitos rios que já conheci, desde o Ljubljanica ao Danúbio, do Sena ao Tamisa, do Hudson ao Douro.

Vejo o passado e o presente, mas não consigo ver o futuro.

A esta distância consigo ver muito para além do óbvio, mas na maior parte dos dias o óbvio é tudo o que vejo.