Sempre diferente

– Falhámos a vida, menino! 
– Creio que sim… Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. Diz-se: «vou ser assim, porque a beleza está em ser assim». E nunca se é assim, é-se invariavelmente assado, como dizia o pobre marquês. Às vezes melhor, mas sempre diferente.”

Eça de Queirós em “Os Maias”

Anúncios

The Imitation Game (2014)

MV5BOTg1NTFlZTAtMzI0ZS00ZGUzLTkwZGEtNTc3NDA1YWU2NDhlXkEyXkFqcGdeQXVyMTI3MDk3MzQ@._V1_SX1777_CR0,0,1777,740_AL_

Alan Turing: You got what you wanted. A husband, a job… a normal life.

Joan Clarke: No one normal could have done that. Do you know, this morning… I was on a train that went through a city that wouldn’t exist if it wasn’t for you. I bought a ticket from a man who would likely be dead if it wasn’t for you. I read up on my work… a whole field of scientific inquiry that only exists because of you. And while you wish you could have been normal… I can promise you I do not. The world is an infinitely better place precisely because you weren’t.

Alan Turing: You really think that?

Joan Clarke: I think, that sometimes it is the people who no one imagines anything of, who do the things no one… can imagine.

Ólafur Arnalds e os ‘pianos fantasma’

“Não sei o que fazer. Isto não está a funcionar”. O concerto ainda não ia a meio quando Olafur Arnalds reportou ao público um problema técnico: o software que demorou dois anos a desenvolver com um amigo “que percebe de matemática” e que permite transmitir informação do seu piano para os dois “self-playing pianos” que o acompanham – ou “ghost pianos” como lhes chamou –  não estava a responder. Sem desesperar e com algum humor, entreteve um Coliseu dos Recreios lotado durante os 15 minutos que demorou a reiniciar por completo o sistema. Quando conseguiu resolver o problema, a sala encheu-se de palmas.

A tecnologia é uma grande aliada do islandês, mas em palco esteve também um quarteto de cordas e um percussionista de inegável talento. O espetáculo que Arnalds criou é complementado por um jogo de luzes arrebatador, sempre pontuado por uma neblina nostálgica, conseguindo fazer disparar uma série de emoções antagónicas a cada novo acorde.

Arnalds, que em 2014 levou para casa um BAFTA, é difícil de categorizar, não cabe em nenhuma caixa. Neo-clássico, eletrónico, experimental. Há muitas expressões com que nos deparamos sempre que lemos alguma coisa sobre ele e nenhuma parece ser boa suficiente para o descrever.

No alto mar

No alto mar
A luz escorre
Lisa sobre a água.
Planície infinita
Que ninguém habita.

O Sol brilha enorme
Sem que ninguém forme
Gestos na sua luz.

Livre e verde a água ondula
Graça que não modula
O sonho de ninguém.

São claros e vastos os espaços
Onde baloiça o vento
E ninguém nunca de delícia ou de tormento
Abriu neles os seus braços.

Sophia de Mello Breyner Andresen, “Poesia”, 1944

Cabe-nos a nós ouvir

Ontem, dia de luto nacional pelas vítimas de violência doméstica, lembrei-me deste anúncio do Super Bowl de 2015, que reproduz uma chamada real para o 911 de alguém está, supostamente, a tentar encomendar uma pizza. Felizmente, o operador que atende a chamada tem a capacidade de perceber que é um pedido de ajuda: “Quando é difícil falar, cabe-nos a nós ouvir”.