Virar as costas

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“O que o tio não compreende é que, ao caminhar às arrecuas, com as costas viradas para o mundo e para Deus, ele não está a exprimir pesar. Está a levantar uma objeção. Porque, quando tudo o que acalentávamos na vida nos foi tirado, que mais nos resta senão objetar?”

Yann Martel in  “As Altas Montanhas de Portugal” (2016)

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Do vazio

As letras já não se agregam como dantes, não se multiplicam como dantes, não formam palavras como dantes.

Onde deviam estar – sim, elas, as letras – aparecem espaços vazios sem significado. Resultado de minutos gastos com coisa nenhuma. Minutos gastos a tentar que o cérebro se esqueça do desgaste, da pressão, de todas frases azedas que assimilou durante o dia.

Lembro-me muitas vezes de um poema de Álvaro de Campos.

 

“A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

(…) “ Álvaro de Campos

 

 

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Room (2016)

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Jack: I’ve been in the world 37 hours. I’ve seen pancakes, and a stairs, and birds, and windows, and hundreds of cars. And clouds, and police, and doctors, and grandma and grandpa. But Ma says they don’t live together in the hammock house anymore. Grandma lives there with her friend Leo now. And Grandpa lives far away. I’ve seen persons with different faces, and bigness, and smells, talking all together. The world’s like all TV planets on at the same time, so I don’t know which way to look and listen. There’s doors and… more doors. And behind all the doors, there’s another inside, and another outside. And things happen, happen, HAPPENING. It never stops. Plus, the world’s always changing brightness, and hotness. And there’s invisible germs floating everywhere. When I was small, I only knew small things. But now I’m five, I know EVERYTHING!

 

 

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“Quem tem alma não tem calma”

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Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem  alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo :  “Fui  eu ?”
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa 

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meter a vida na arte

Quando jovem, Nadir compartilhara um quarto com um pintor cujos quadros foram aumentando de tamanho à medida que tentava meter a totalidade da vida na arte. “Olha para mim – dissera-lhe o pintor antes de se suicidar -, o meu desejo era ser miniaturista e acabei por contrair uma elefantíase!” A importância adquirida pelos acontecimentos da noite fez com que Nadir Khan se recordasse do camarada de quarto, pois, uma vez mais, perversa, a vida tinha-se recusado a ter apenas o tamanho da vida. 

Salman Rushdie, em ‘Os Filhos da Meia Noite’

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Impressões sonoras (25)

Há uns meses estava a passar os olhos pela filmografia da Keira Knightley. É uma atriz que, na minha opinião, ou se adora ou se odeia. No meu caso é a primeira opção que conta. Gosto muito dela e nem sei explicar bem porquê. Encontrei um filme chamado Begin Again (2013) de que nunca tinha ouvido falar. A descrição dizia que ela contracenava com Adam Levine, dos Maroon 5, e com o ator Mark Ruffalo. Achei esta mistura um pouco estranha, mas vi o filme exatamente por me parecer estranho. Para além de ter gostado (quem nunca gostou de um romance que atire a primeira pedra), descobri esta música que também nunca tinha ouvido. Há quem despreze Maroon 5, há quem despreze Adam Levine. Ah e tal, que é popularucho, parolo, demasiado pop, demasiado mainstream, demasiado não-sei-o-quê. Estou-me borrifando. O rapaz canta bem (comprovei isso quando o ouvi ao vivo), faz músicas simples, que trazem alguma paz e ainda por cima é giro que se farta (OK, menos).

A Keira Knightley, que não é cantora nem nada que se pareça, também tem uma música nesse filme. Uma música que consegue ser incrível de tão simples que é. Guardo essa para outro post. 

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Impressões fotográficas: Sebastião Salgado

Tea, Rwanda

Child worker at the Mata tea plantation, Rwanda, 1991

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