Do vazio

As letras já não se agregam como dantes, não se multiplicam como dantes, não formam palavras como dantes.

Onde deviam estar – sim, elas, as letras – aparecem espaços vazios sem significado. Resultado de minutos gastos com coisa nenhuma. Minutos gastos a tentar que o cérebro se esqueça do desgaste, da pressão, de todas frases azedas que assimilou durante o dia.

Lembro-me muitas vezes de um poema de Álvaro de Campos.

 

“A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

(…) “ Álvaro de Campos

 

 

Deixe o seu comentário

Filed under Uncategorized

Room (2016)

room-03

Jack: I’ve been in the world 37 hours. I’ve seen pancakes, and a stairs, and birds, and windows, and hundreds of cars. And clouds, and police, and doctors, and grandma and grandpa. But Ma says they don’t live together in the hammock house anymore. Grandma lives there with her friend Leo now. And Grandpa lives far away. I’ve seen persons with different faces, and bigness, and smells, talking all together. The world’s like all TV planets on at the same time, so I don’t know which way to look and listen. There’s doors and… more doors. And behind all the doors, there’s another inside, and another outside. And things happen, happen, HAPPENING. It never stops. Plus, the world’s always changing brightness, and hotness. And there’s invisible germs floating everywhere. When I was small, I only knew small things. But now I’m five, I know EVERYTHING!

 

 

Deixe o seu comentário

Filed under Uncategorized

“Quem tem alma não tem calma”

f7b60c5d254cd7e8bf9e50d8d8dad49c

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem  alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo :  “Fui  eu ?”
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa 

Deixe o seu comentário

Filed under Uncategorized

meter a vida na arte

Quando jovem, Nadir compartilhara um quarto com um pintor cujos quadros foram aumentando de tamanho à medida que tentava meter a totalidade da vida na arte. “Olha para mim – dissera-lhe o pintor antes de se suicidar -, o meu desejo era ser miniaturista e acabei por contrair uma elefantíase!” A importância adquirida pelos acontecimentos da noite fez com que Nadir Khan se recordasse do camarada de quarto, pois, uma vez mais, perversa, a vida tinha-se recusado a ter apenas o tamanho da vida. 

Salman Rushdie, em ‘Os Filhos da Meia Noite’

Deixe o seu comentário

Filed under Uncategorized

Impressões sonoras (25)

Há uns meses estava a passar os olhos pela filmografia da Keira Knightley. É uma atriz que, na minha opinião, ou se adora ou se odeia. No meu caso é a primeira opção que conta. Gosto muito dela e nem sei explicar bem porquê. Encontrei um filme chamado Begin Again (2013) de que nunca tinha ouvido falar. A descrição dizia que ela contracenava com Adam Levine, dos Maroon 5, e com o ator Mark Ruffalo. Achei esta mistura um pouco estranha, mas vi o filme exatamente por me parecer estranho. Para além de ter gostado (quem nunca gostou de um romance que atire a primeira pedra), descobri esta música que também nunca tinha ouvido. Há quem despreze Maroon 5, há quem despreze Adam Levine. Ah e tal, que é popularucho, parolo, demasiado pop, demasiado mainstream, demasiado não-sei-o-quê. Estou-me borrifando. O rapaz canta bem (comprovei isso quando o ouvi ao vivo), faz músicas simples, que trazem alguma paz e ainda por cima é giro que se farta (OK, menos).

A Keira Knightley, que não é cantora nem nada que se pareça, também tem uma música nesse filme. Uma música que consegue ser incrível de tão simples que é. Guardo essa para outro post. 

Deixe o seu comentário

Filed under Uncategorized

Impressões fotográficas: Sebastião Salgado

Tea, Rwanda

Child worker at the Mata tea plantation, Rwanda, 1991

Deixe o seu comentário

Filed under Uncategorized

Memórias de Bruxelas III

Feiras do Livro nunca são má ideia. Gosto especialmente de Feiras do Livro na rua e especialmente da Feira de Lisboa. Como não podia deixar de ser, em Bruxelas este evento costuma ser organizado dentro de portas. Será chuva? Será vento? Por causa do calor não é certamente.

(Fico espantada com a minha capacidade me queixar constantemente do mau tempo de Bruxelas e, ainda assim, gostar tanto daquela cidade. Como li uma vez num guia alternativo para turistas: “Brussels is ugly and we love it. And if we don’t love it, we live with it”).

Adiante.

Domingo, 10 de março de 2013

O que é que se faz num sábado de chuva e frio de gelar os ossos?
Primeira condição para uma escolha com elevada taxa de satisfação: a atividade tem de ser realizada num espaço aquecido e de preferência com bebidas quentes à venda.  Além disso, dá jeito um bocadinho de cultura e interação social q.b.. Misturam-se os ingredientes et voilà: cozinhámos uma ida à feira do livro.
As expectativas eram altas (não foi inteligente criar expectativas, eu sei). Estava decidida a comprar alguns livros em inglês e, se possível, com os descontos apetitosos que costuma haver nestas feiras. Enfim, não só não havia um único livro em inglês, como os livros eram bem caros. OK, estou a mentir, havia um livro em inglês. Qualquer coisa como “Banca e Finanças na União Europeia”. Uhh!
De qualquer maneira, vi um autor de livros infantis vestido de rato e disse-lhe que gostava dele. O rato falava inglês e agradeceu. Como não podia deixar de ser, havia um stand dedicado a uma marca de cervejas. Portanto, como podem imaginar, era um dos mais concorridos. Também gostei especialmente da banca das gomas. Não gostei da multidão sempre a acotovelar-se sem pedir desculpa. Gostei, claro, de ver tantos autores disponíveis para falar com as pessoas e de ver tanta gente apesar de ser preciso pagar bilhete para entrar. Em Portugal talvez não resultasse.
Saí da feira com um livro de exercícios de francês dentro de um embrulho de papel (Recettes de grammaire – Conseils de Grand-mère) e uma garrafa de cerveja que me ofereceram à saída. Não sem antes me perguntarem se eu já tinha 16 anos. 

P1050091

Deixe o seu comentário

Filed under Uncategorized