Romeu e Julieta, com amor, no Trindade

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As expectativas não eram altas, confesso. Os personagens principais, interpretados por dois jovens atores que, habitualmente, vemos em novelas da noite ou programas de entretenimento de domingo, não pressagiavam uma noite incrível no Teatro da Trindade. Já tinha ficado desiludida com Zoom, em cena no mesmo palco durante o mês de Março e, por isso, temia o pior.

Romeu e Julieta não é uma peça fácil. A adaptação tem de ser bem feita: se for demasiado moderna pode cair no ridículo, se mantiver totalmente o espírito medieval corre o risco de se tornar ininteligível. Neste aspeto, é de louvar o trabalho brilhante de João Maria André, que conseguiu um texto que manteve o público preso até ao fechar da cortina. 

Já a encenação, a cargo de João Mota, é incrível, tanto que nem reparamos numa cenografia humilde e despida, provavelmente intencional. Todo o foco está no desempenho dos atores, dos diálogos, das expressões.

A grande surpresa da noite foi sem dúvida José Condessa, um jovem ator de 21 anos, que venceu a última edição do programa “Dança com as Estrelas” e que é, muitas vezes, apelidado como “menino bonito das novelas”. No entanto, no palco do Trindade, provou ser bastante mais do que isso. 

 

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Sempre diferente

– Falhámos a vida, menino! 
– Creio que sim… Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. Diz-se: «vou ser assim, porque a beleza está em ser assim». E nunca se é assim, é-se invariavelmente assado, como dizia o pobre marquês. Às vezes melhor, mas sempre diferente.”

Eça de Queirós em “Os Maias”

The Imitation Game (2014)

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Alan Turing: You got what you wanted. A husband, a job… a normal life.

Joan Clarke: No one normal could have done that. Do you know, this morning… I was on a train that went through a city that wouldn’t exist if it wasn’t for you. I bought a ticket from a man who would likely be dead if it wasn’t for you. I read up on my work… a whole field of scientific inquiry that only exists because of you. And while you wish you could have been normal… I can promise you I do not. The world is an infinitely better place precisely because you weren’t.

Alan Turing: You really think that?

Joan Clarke: I think, that sometimes it is the people who no one imagines anything of, who do the things no one… can imagine.

Ólafur Arnalds e os ‘pianos fantasma’

“Não sei o que fazer. Isto não está a funcionar”. O concerto ainda não ia a meio quando Olafur Arnalds reportou ao público um problema técnico: o software que demorou dois anos a desenvolver com um amigo “que percebe de matemática” e que permite transmitir informação do seu piano para os dois “self-playing pianos” que o acompanham – ou “ghost pianos” como lhes chamou –  não estava a responder. Sem desesperar e com algum humor, entreteve um Coliseu dos Recreios lotado durante os 15 minutos que demorou a reiniciar por completo o sistema. Quando conseguiu resolver o problema, a sala encheu-se de palmas.

A tecnologia é uma grande aliada do islandês, mas em palco esteve também um quarteto de cordas e um percussionista de inegável talento. O espetáculo que Arnalds criou é complementado por um jogo de luzes arrebatador, sempre pontuado por uma neblina nostálgica, conseguindo fazer disparar uma série de emoções antagónicas a cada novo acorde.

Arnalds, que em 2014 levou para casa um BAFTA, é difícil de categorizar, não cabe em nenhuma caixa. Neo-clássico, eletrónico, experimental. Há muitas expressões com que nos deparamos sempre que lemos alguma coisa sobre ele e nenhuma parece ser boa suficiente para o descrever.

No alto mar

No alto mar
A luz escorre
Lisa sobre a água.
Planície infinita
Que ninguém habita.

O Sol brilha enorme
Sem que ninguém forme
Gestos na sua luz.

Livre e verde a água ondula
Graça que não modula
O sonho de ninguém.

São claros e vastos os espaços
Onde baloiça o vento
E ninguém nunca de delícia ou de tormento
Abriu neles os seus braços.

Sophia de Mello Breyner Andresen, “Poesia”, 1944