As time goes by

Camden Market, Londres, Outubro de 2011

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Respect is better than love

Room in New York (Edward Hopper)

“Nobody asks you to love the whole world, only to be honest. Don’t have a loud mouth. The more you love people the more they’ll mix you up. A child loves, a person respects. Respect is better than love.”

Saul Bellow in The Adventures of Augie March

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Como?

Como é que conseguem fazer um cartaz tão mau para um filme tão bom?

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Pan Am

Collete: You smell like whiskey and cigarrettes

Dean: You smell like Paris

(Pan Am, S01E02)

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Like no one is watching

Camden Stables Market, London

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Agora, o livro

“And then he saw the letter. Six blue sheets densely written on both sides. He stared at it as if an intruder had left it behind, and with his new sobriety came the first twinge of doubt. Picking it up gingerly, he glanced at a page at random and immediatly looked away, his mouth puckered tight. All those capitals and exclamations marks and awful jokes. He had called her ‘sexy’, he had used the word ‘discersion’ which wasn’t even a proper word. He sounded like some poetry-reading sixth-former, not a pioneer, and adventurer with a shaved head and a tattoo and no underpants beneath his jeans. “I will find you, I’ve been thinking about you, Dex and Em, Em and Dex” – what was he thinking? What had seemed urgent and touching an hour ago now seemed mawkish and gauche and sometimes frankly deceitful; there had been no praying mantis on the wall, he hadn’t been listening to her compilation tape as he wrote, had lost his cassette player in Goa. Clearly, the letter would change everything, and weren’t things just fine as they were? Did he really want Emma with him in India, laughing at his tattoo, making smart remarks? Would they have to share a bed? Did he really wanted to see her that much?

Yes. he decided, he did. Because for all its obvious idiocy, there was a sincere affection, more than affection, in what he had written and he would definitly post it that night. If she over-reacted, he could always say he was drunk. That much at least was true.”

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One Day (2011)

 

Ian: She made you decent, and in return you made her so happy.

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Impressões sonoras (20)

 

A dream that I see, don’t kill it, it’s free.

 

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Afinal, não voltei

“Quase meio ano depois” (Texto de 23 de Julho de 2009)

Foi no dia 14, em Fevereiro. Já não havia sol quando entrámos no avião. A viagem de volta a Portugal foi atribulada, com direito a um sem número de complicações. Uma noite no aeroporto de Stansted, quase um litro de café com leite e uma noite sem dormir. Um voo que marcou o fim de seis meses na capital de um país que por cá às suscita perguntas como “Estiveste na Eslováquia não foi?”. Eslovénia, foi na Eslovénia.

Há uma imagem que me aparece sempre com bastante nitidez: abro a janela de manhã antes de sair para as aulas e vejo um manto branco, enorme, impenetrável, que me faz ficar uns minutos parada antes de começar a enfiar a roupa toda que não me deixava congelar no meio da rua. Descobri que adoro neve. Sim, pois, adoro neve quando não está a derreter e se enfia por dentro das botas e congela os pés até deixar de os sentir. Mas adoro neve. A neve não molha o guarda-chuva. No dia do meu aniversário nevou. E ainda bem que nevou no dia do meu aniversário.

Devia ter fotografado a rua da faculdade. Quer dizer, fotografei, mas só com neve. Devia ter fotografado em Outubro também. O chão não era chão, eram folhas. Foi antes da neve que conhecemos Ljubljana, quando ainda não havia as temperaturas negativas do Inverno. Caminhámos junto ao rio até à Dragons Bridge, andámos em Mestni p’ra lá e pr’a cá. “Esta é a minha rua preferida”. Era, continuará a ser quando lá voltar, tenho a certeza. Uma rua larga, silenciosa, as casas coloridas, as lojas pequenas e convidativas, as esplanadas, o café ao fundo com umas mesas altas em que passei horas sem ver as horas passar. Ah, e o os burritos do Café Romeu, claro.

Ficaram na nossa residência em Topniska os jantares no 1407, quase sempre acompanhados com sangria. O vinho rasca do Inter Spar, a fruta e os sumos pesavam-nos sempre nos sacos que trazíamos no autocarro quando voltávamos do BTC. Esperávamos pelo 7 na paragem enquanto tagarelávamos em português despertando alguns olhares curiosos,mas sempre discretos. Mais discretos do que nós com certeza. Ninguém nos percebia, era essa a nossa sorte.

Ficaram junto ao rio os inúmeros cafés, os chás, as conversas. Ficaram junto ao Ljubljanica uns quantos portugueses encostados a uma parede para se abrigarem da chuva no dia em que resolveram provar o típico vinho cozido que os eslovenos adoram. Estão lá os milhares de bicicletas a correr pelas ruas. Não comprei uma bicicleta, ia ficar muito frio e em Fevereiro tinha de ir embora. Não, não comprei, mas tinha o passe e esperava pelo 7, o 19 ou 20. Íamos ao centro, adorávamos ir ao centro. Comprei um cachecol e umas luvas na primeira semana e estávamos em Setembro. Depois ficou ainda mais frio. O tempo foi ficando mais frio, Ljubljana não.

Não foram só dias, foram noites também. Noites de música, de sorrisos que vieram de longe para se encontrarem no Parlament em Kongresni Trg ou no Compañeros na Slovenska. Para se encontrarem numa qualquer esplanada, numa aula, num jantar na residência de Bezigrad ou num dos muitos restaurantes da cidade.

Foi Veneza, Trieste, Zagreb, Viena, Graz, Praga, Sarajevo e tantas outras cidades a que chegámos de mapa na mão. E Budapeste, foi Budapeste também. Horas dentro de comboios, mudanças em estações com um ar duvidoso e as muitas paragens nas fronteiras que valeram mais do que a pena.

Chegámos a Lisboa no outro dia de manhã. Ficou o abraço à porta do autocarro para o aeroporto e um “I’ll see you around”. Porque adeus não parecia uma opção. Foi no dia 14, em Fevereiro.

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Impressões sonoras (19)

 

 

Feel that summer rain. It’s in your face again.

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Serra acima

 

“Papá, esta água vem de onde?” De pés descalços junto à Fonte de São João, chapéu cor-de-rosa e saia de ganga, uma menina vai chapinhando enquanto o pai acaba de encher o último garrafão. Ao fim-de-semana,  a romaria às onze bicas que correm incessantemente no centro da vila do Luso intensifica-se. Avós e netos, pais e filhos, casais, novos e velhos, vão chegando com três, cinco, dez garrafões, que depois de cheios acabam alinhados na bagageira do carro à espera de voltarem para casa. Às vezes passa o turista, que por esta altura ainda rareia, e enche uma garrafita para matar a sede. Apesar do vaivém dos engarrafamentos, o Luso não perde a calma nem o silêncio. Estranho e ao mesmo tempo reconfortante para quem chega da confusão da cidade. O calor de Junho faz-se sentir. Ali ao lado, há quem esteja relaxar para as famosas e medicinais termas no Edifício Casino, construído sobre o balneário termal em 1855. Alguns metros abaixo, a relva do Parque do Lago está colorida por dezenas mantas e mesas de pic-nic de um grupo que por aqui combinou um almoço, mas ainda há muita sombra para quem a quiser. Num banquito de madeira por entre as raízes das árvores junto à água há quem tire fotografias aproveitando o repuxo ao fundo. À saída do parque, mais um clique na máquina, desta vez ao pé do imponente Grande Hotel do Luso, remodelado este ano. O calor continua a apertar. A entrada para a mata Nacional do Buçaco é já ali. Os aventureiros, amantes da natureza ou simplesmente quem não tem as horas contadas põe-se a caminho pelas íngremes escadinhas até miradouro da Cruz Alta, 550 metros acima do nível do mar. A recompensa pelo esforço é uma vista assombrosa sobre o verde da região, e se o tempo ajudar, para as serras do Caramulo e da Estrela. Quem sobe pela encosta de carro paga a entrada, mas recebe em troca um caminho diferente de todos os outros: ladeado por árvores colossais, engolido por um silêncio que chega a ser desconcertante. A certa altura,há que estar atento às indicações, parar o carro e descer a pé o vale dos fetos, onde nem apetece testar o eco para prolongar a paz.

 

 

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Jojo Moyes: “Sonhava ver o meu nome na lombada de um livro”

Foi telefonista, trabalhou numa agência de viagens, escreveu textos em ‘braille’ e após dez anos no jornalismo tornou-se uma das mais bem-sucedidas romancistas britânicas.

Em casa de Jojo Moyes existe um caderno antigo repleto de longas histórias sobre meninas que se atrevem a enfrentar criminosos e de bandas desenhadas que ela própria escrevia e ilustrava quando era criança. Passaram os tempos de infância, mas não a vontade de poder “traduzir o mundo em palavras”.

Sentada à mesa de um restaurante em Lisboa, a escritora britânica estica os dedos, um a um, enquanto enumera o nome dos países onde os seus livros já foram traduzidos. São mais de treze, e Portugal é um deles. Dizendo-se “deliciada” com a gastronomia portuguesa, responde às perguntas do DN entre garfadas e sorrisos amáveis. Distinguida em 2004 e em 2011 com o galardão britânico Romance do Ano, a ex-jornalista do The Independent descreve, num tom sereno, o momento em que soube que ia conseguir publicar o seu primeiro romance, após três tentativas mal-sucedidas. “Em Inglaterra há leilões, via telefone, em que as editoras fazem ofertas para a publicação dos livros. E se antes ninguém queria publicar-me, de repente apareceram seis editoras interessadas no romance Retrato de Família. Estava na redacção, em 2002, quando a minha agente ligou e disse para me sentar. Eu estava muito grávida.”

Jojo costumava dizer que ficava feliz se o livro lhe desse dinheiro suficiente para arranjar a banheira lá de casa. A certa altura, a agente diz-lhe ao telefone: “Acho que vamos arranjar a tua banheira.” As ofertas continuavam a subir, até que atingiram um valor que lhe permitiria dedicar-se à escrita a tempo inteiro. Desfez-se em lágrimas. Na redacção do The Independent, a colega ao seu lado também chorava. Era quase altura do Natal, e um editor que não sabia de nada disse-lhe: “Pára de chorar, quero um texto de 500 palavras sobre como rechear um peru.” “E eu escrevi a história do peru, enquanto ao telefone a agente me dizia: ‘O valor subiu, subiu outra vez.’” Desde essa altura, Jojo já publicou mais sete romances.

Mãe de três filhos, sobra-lhe pouco tempo para a vida social. Há muito que deixou a confusão de Londres, onde nasceu em 1969, para se refugiar com a família numa quinta a Nordeste da capital. É lá que muitas vezes passeia a cavalo com a filha de 13 anos. Confessa que nem sempre é fácil gerir trabalho e família. O marido, jornalista, tem um horário complicado.

Enquanto prova os tradicionais fios de ovos, à sobremesa, Jojo explica que teve “alguns trabalhos maus” antes de chegar ao Independent: “Fui telefonista de uma empresa de taxis, trabalhei num banco a escrever cartas em braille e para uma agência de viagens com má fama no país.”

Conseguia imaginar que os seus livros alcançariam tanto sucesso? “Como escrevi três romances que não consegui publicar, o meu sonho era simplesmente ver o meu nome na lombada de um livro.”

O sonho tornou-se realidade, mas Jojo não esconde que consegue ser muito pessimista. “Tenho de saber o que fazer no pior cenário possível. Sou a pessoa que entra no hotel e verifica onde são as saídas de emergência. Sou catastrofista.” Ainda assim, não se imagina a fazer qualquer outra coisa além de escrever.

Há dois anos, as editoras estavam com problemas financeiros. Ficou insegura, começou a pensar no que faria se perdesse o seu contrato. Um dia, viu uma mulher polícia a cavalo e pensou: “Este podia ser um trabalho interessante para mim.” Logo a seguir teve uma ideia: “Podia escrever um bom livro sobre uma mulher polícia.” Acaba por associar todas as ideias a um livro. É a rir que diz: “Estou condenada.”´

Jojo Moyes esteve na Feira do Livro de Lisboa para apresentar o seu romance ‘Retrato de Família’

“Sonho com o livro e falo com as personagens durante o sono”

 Jojo Moyes esteve na Feira do Livro de Lisboa para apresentar o seu romance Retrato de Família, onde cabem duas histórias de amor, em duas gerações diferentes. Uma nos anos 60 e outra nos tempos modernos. Apesar de não bloquear enquanto escreve, nem sempre o trabalho de Jojo se revela fácil. Normalmente, escreve de Setembro a Julho. Em Outubro anda pela casa a dizer que não terá tempo de acabar o livro, quando “ainda nem começou”. Em Novembro tem 20 mil palavras escritas e diz: “Isto não vai resultar, não sei o que fazer.” A partir de Janeiro, está “muito empenhada”, mas continua a dizer: “Não sei porque comecei este livro, mas já não tenho tempo de escrever outro.” Em Abril, o discurso já mudou: “Adoro o livro, digo ao meu marido que não posso falar com ele porque quero escrever.” Sonho com o livro, falo com as personagens durante o sono.” Depois, reescreve uma parte em Junho e entrega. Aí, diz que se sente triste: “O meu livro desapareceu.”

[Publicado no DN a 14 de Maio de 2011]

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Jostein Gaarder: “Tornei-me famoso por afirmar: o mundo existe”

De uma janela do hotel, Jostein Gaarder vê uma Lisboa cinzenta. Inconformado, o escritor norueguês procura o sol na previsão do tempo que lhe aparece no telemóvel. Digo-lhe para ter esperança. “Sim, mas também tenho de ser realista”

“Certas pessoas ficam aborrecidas por lhes recordarem que existem.” É o que diz Solrun, uma das personagens de O Castelo dos Pirenéus, que vem apresentar na Feira do Livro. Numa altura em que as pessoas andam sempre tão ocupadas, há quem esteja disponível para pensar sobre as questões que levanta neste romance?

Quando tinha 11 anos, lembro-me de perguntar aos meus pais e professores: “Não acham que é estranho que o mundo exista?” Eles diziam: “Não, nem por isso.” Deviam achar-me louco ou algo assim. Pode dizer-se que me tornei mundialmente famoso por afirmar: “O mundo existe.” Por lembrar as pessoas da experiência mais óbvia que temos em comum. Nascemos curiosos, mas à medida que vamos crescendo, começamos a olhar a vida como um hábito. Esquecemo-nos de questionar. Às vezes precisamos de nos tornar avós ou de ficarmos doentes para voltar a questionar as coisas.

A maneira como olhamos o mundo é totalmente influenciada pela educação que recebemos?

Cresci rodeado de muitos livros. Os meus pais liam-me contos populares e livros para crianças. Isso foi muito importante, mas houve em mim uma espécie de ignição, uma experiência especial. Quando ia com os meus amigos no caminho para a escola, perguntava-lhes também: “Não acham estranho que vivamos?” Eles diziam que não. Falavam sobre o Gagarin e jogavam futebol. Sentia-me um outsider. Desde criança que me habituei a caminhar pela floresta, fora da cidade, durante horas, sem encontrar uma única pessoa.

Neste livro existe um diálogo constante entre razão e fé, ciência e religião. Sendo um racionalista, foi difícil construir uma personagem com um lado espiritual?

Foi uma necessidade. Quando comecei a escrever pensava da mesma forma que [a personagem] Steinn, baseando-me na razão. Mas quando comecei a moldar a Solrun, a escrever a sua história, comecei a ouvi-la. Este livro é um encontro entre uma forma espiritual de olhar a vida e uma outra mais científica. Um encontro que começou a transformar-se num diálogo dentro da minha própria mente. Estou mais aberto a possíveis dimensões sobrenaturais do que antes.

Cria laços emocionais com as suas personagens ou elas são apenas um veículo para transmitir aos leitores aquilo que gostaria de lhes ensinar pessoalmente?

Ambos. Não posso dizer que me deixei levar pelos personagens quando escrevi O Mundo de Sofia. Elas estão lá como simples instrumentos para apresentar aspectos filosóficos. Noutros livros, como O Inigma e o Espelho, existe uma rapariga que sofre de leucemia e que, no final do livro, está a morrer. Sinto-me muito apegado a ela. Em O Castelo dos Pirenéus, consigo identificar-me com os pontos de vista de Steinn, mas sinto que a mulher tem mais impacto em mim enquanto ser humano. Há muitas semelhanças entre a vida daquele casal e a minha e da minha mulher.

Sei que quando eram novos tinham uma reprodução do quadro de Magritte que deu nome a este livro na parede do quarto…

Sim, tínhamos um poster. É uma pintura que retrata o impossível, com uma enorme rocha a flutuar no espaço.

Inspirou-o?

Sim, há muita coisa que vou buscar à minha vida nos anos 70. Eu e a minha mulher agíamos de forma muito semelhante à de Solrun e Steinn. Podíamos ser nós a guiar aquele Volkswagen vermelho pelas montanhas.

Tinha um Volkswagen vermelho?

Tínhamos um Fiat vermelho. A grande diferença é que depois de cinco anos apaixonados, eles separam-se por terem uma interpretação completamente diferente de uma experiência que viveram. Quando voltam a encontrar-se, exactamente no mesmo sítio onde viveram essa experiência, a história de amor recomeça.

Acredita que poderiam ter estado apaixonados durante os 30 anos em que não se viram?

Um deles diz que é como se tivessem comunicado, telepaticamente, durante aquele tempo. Eu tenho amigos que já não estão vivos e às vezes falo com eles. Não com a minha a voz, mas…. 

Jostein Gaarder, autor de 'O Mundo de Sofia'

Foi professor de Filosofia durante muitos anos. Ser escritor é uma continuação desse trabalho?

De certa maneira continuo a considerar-me um professor. Depois de escrever O Mistério do Jogo das Paciências, o meu primeiro grande sucesso, ganhei prémios e pensei tornar-me escritor a tempo inteiro. Foi por isso que escrevi O Mundo de Sofia, baseando-me na minha experiência a ensinar jovens. Não podia desperdiçar isso, e senti que era um dever escrever esta obra. Disse à minha mulher: “Estou a escrever um livro que, provavelmente, não nos dará dinheiro nenhum.” Ela disse: “Então escreve-o rápido.” E escrevi. Em três meses, durante 15 horas por dia. O meu editor na Noruega hesitou em publicá-lo porque é um livro híbrido. É sobre filosofia, mas, ainda assim, um romance. Na altura, escrevi um cartão à editora a agradecer por publicarem um livro por razões culturais (risos). Não tardou muito até serem eles a agradecer.

Não se sente perseguido pelo sucesso d’ O Mundo de Sofia?

Já pensei dessa maneira, mas não posso queixar-me. A Sofia abriu-me a porta para a publicação de outros livros, meus e de outros autores escandinavos. Nos EUA deixaram de rejeitar os livros só por serem noruegueses.

Depois de ter começado a escrever, sentiu que era um dever continuar a fazê-lo?

Depois de publicar um livro de grande sucesso, há quem tenha medo de escrever coisas novas. Temos medo de competir connosco próprios. Para ser honesto, sinto que a minha missão como escritor foi cumprida. Mas há um livro que sinto que tenho de escrever. É sobre um tema muito sério: o aquecimento global.

Preocupa-se com o planeta…

Estou preocupado com a civilização. Temos pensado em formas de proteger a natureza, mas agora trata-se de perceber como irá a civilização sobreviver após termos destruído tanto. Mas não sou pessimista. Pessimismo é sinónimo de preguiça. Ser pessimista é mostrar que não queremos responsabilidades. Ser optimista implica lutar. Há uma palavra entre optimismo e pessimismo: esperança. E a esperança pode ser associada a uma posição lutadora.

Faço-lhe uma questão que coloca no seu livro: imagine que tem dois botões na mesa à sua frente. Se carregar num deles pode viver até aos cem anos, mas toda a humanidade morrerá nessa altura. Se carregar no outro, morre imediatamente, mas a civilização continuará a existir para sempre. Qual deles escolhe?

Juro que não hesitaria: escolheria morrer imediatamente.

[Entrevista publicada no DN a 7 de Maio de 2011]

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Nem telas, nem palavras

Se soubesse pôr esta paisagem numa tela, não precisava de andar agora às voltas com as palavras. Sei lá! São nuvens cor de chumbo, montes ensopados pela água que de repente o céu decidiu entornar e árvores magras que já mataram a sede? Um dia achei que até podia ter jeito com os pincéis. Desenhei um parque e uma ou outra coisa mais ou menos abstracta. Ah, e o peixe. O peixe até foi o meu preferido, mas o esforço não compensava. Desisti dos pincéis, estão para lá especados dentro de um boião de vidro transparente que um dia já deve  ter estado cheio de pickles. Então, fui pegar nas palavras. Só que se calhar pego mais nas palavras dos outros do que nas minhas. Manda a profissão. Tanto que agora quero dizer qual é a cor dos montes molhados que ali estão e só sei dizer que são verdes. Há milhões de coisas verdes. Tantas que quando as começasse a contar já o tempo tinha acabado. Ora, recuso-me a dizer que os montes que vejo da janela do comboio são verdes. Têm de ser outra coisa qualquer. Vendo bem, se calhar são da cor de uma saia que a minha avó tem lá por casa. Até pode ser. Mas de certeza que a saia da minha avó não tem aquelas manchas amarelas que por ali aparecem a estragar-me a comparação. Pronto, a saia da minha avó não serve, mas só verde também não. Se eu soubesse usar os pincéis como deve ser, não andava agora às voltas com as palavras. Apetece-me bater-lhes. Nelas, nas palavras, que me fogem sempre que ando atrás delas. Oh, mas não sou pessimista. É verdade: hoje disseram-me que há uma coisa intermédia entre o pessimismo e o optimismo, diz que é a esperança. Talvez, então, eu não seja optimista, nem pessimista enquanto ando a correr atrás das palavras. Tenho esperança de que um dia elas possam caber todas no bolso da minha gabardine cor-de-rosa. Depois é só pegar nelas quando me der na telha, em todas as que me apetecer, e deixar de ter pena por não me ajeitar com os pincéis.

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Jane Eyre (2011)

[Rochester: Sometimes I have the strangest feeling about you. Especially when you are near me as you are now. It feels as though I had a string tied here under my left rib where my heart is, tightly knotted to you in a similar fashion. And when you go to Ireland, with all that distance between us, I am afraid that this cord will be snapped, and I shall bleed inwardly.]

Quem já leu o livro de Charlotte Brontë  deve encontrar inúmeros motivos para reclamar do mais recente filme do jovem realizador Cary Fukunaga . Em duas horas deverá ter sido impossível condensar todas as emoções deste romance. Não li, nem vi as adaptações mais antigas, como a da BBC, por exemplo. Talvez por isso, não me ocorram muitos defeitos a apontar. Apetece-me antes bater palmas a Mia Wasikowska (Jane Eyre), pela naturalidade com que consegue transmitir as mais estranhas emoções, ao director de fotografia, o brasileiro Adriano Goldman e, claro, a Dario Marianelli, compositor, pelo brilhantismo discreto de sempre.

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Impressões sonoras (18)

 

I think I should give up the ghost.

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Impressões fotográficas: Bruno Barbey

Em Marrocos, país onde Bruno Barbey nasceu em 1941

Existem séculos e séculos de silêncio entre nós e, debaixo dos séculos de silêncio, ocultas lá no fundo, se calhar esquecidas, se calhar presentes, se calhar apagadas, se calhar vivas e a doerem-me, coisas que prefiro não transformar em palavras, coisas anteriores às palavras

António Lobo Antunes, Terceiro Livro de Crónicas

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Guess who’s back?

“O que estamos a tentar fazer é apresentar um Pinóquio mais fiel ao que Collodi escreveu”.

Guillermo del Toro anda a conspirar com Nick Cave para trazer o Pinóquio de volta em 2013. Um Pinóquio diferente do Pinóquio Disney, um Pinóquio mais sombrio, mais fiel ao conto original e que vai chegar em stop motion. E por falar em stop motion:

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Impressões sonoras (17)

Que me desculpem os fãs de Trent Reznor – e não querendo retirar mérito  à banda sonora d’A Rede Social – , mas este senhor devia ter levado o boneco dourado para casa.

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Ipsis verbis

You try to keep all the balls in the air, you hope you don’t drop the wrong one.

C.J. Cregg, The West Wing (S05E18)

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Impressões fotográficas: Gabriele e Helmut Nothhelfer

Casal a dançar no Whitsundtide Concert, Berlim (1974)

At every step he took he felt as  man would feel who, after admiring the smooth happy motion of a little boat upon the water, had himself got into the boat. He found that besides sitting quietly without rocking he had to keep a lookout, not for a moment forget where he was going or that there was water under his feet, and that he had to row, although it hurt his unaccustumed hands; in short, that it only looked easy, but to do it, though very delightful, was very difficult.

Leo Tolstoy, Anna Karenina

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Impressões fotográficas: Dane Shitagi (Ballerina Project)

“The Ballerina Project grew from the idea of New York City as a magnet for creativity; each photograph is a collaborative work of dance, fashion design and photography played out against the city’s landscape. “ Ballerina Project

Não foi fácil fazer este post. Não me parece possível seleccionar só duas fotografias de um projecto brilhante como este sem recorrer a uma certa dose de injustiça.

Mais sobre Dane Shitagi aqui.

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Impressões sonoras (16)

Turn the light out, say goodnight
no thinking for a little while
let’s not try to figure out everything at once
It’s hard to keep track of you falling through the sky
we’re half-awake in a fake empire

[Para sentir, ver e ouvir  no Campo Pequeno a 24 de Maio]

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A arte em palcos de calçada portuguesa

Edivon Messias, homem estátua na Rua Augusta (Foto: Gonçalo Villaverde)

Não têm de esperar que as luzes se apaguem e o pano suba. O seu palco são  as ruas da cidade. 

Quem ouve Francis a conversar no seu português desenrascado não pode imaginar que este francês de 38 anos está em Portugal há apenas três meses.Com uma colher de sopa na mão, sentado num café da Rua Augusta na sua hora de almoço, vai explicando como é que um mestre em etnologia pela Universidade de Paris vem para Portugal trabalhar como homem-estátua. Deixando escapar algumas palavras italianas e francesas, Francis Rigal conta que depois de ter estado dez anos a morar em Itália apeteceu-lhe mudar de cidade. Mas não podia ser uma cidade qualquer. Tinha de ser uma cidade cultural, algures na Europa e onde pudesse ter um apartamento grande para viver com a mulher e a filha.

Esforçando-se por se fazer entender, decide dar um exemplo. “É como quando temos um programa de computador: inserimos todos os dados que desejamos e up… apareceu Lisboa!”

A época natalícia traz às ruas da Baixa da cidade a azáfama das compras de Natal, mas também um espírito mais aberto para apreciar a animação de rua. Multiplicam-se os malabaristas, palhaços, músicos e coloridas bolas de sabão gigantes que os mais pequenos se esforçam por rebentar.

Francis não tem um disfarce, diz que é “neutro”. Pode ser quem quiser. Veste-se todo de branco, a cara pintada de branco e um chapéu da mesma cor. Às vezes tem uns pratinhos nas mãos. “Bom, sou uma pessoa com pratinhos.”

Em cima de dois banquitos, Francis equilibra-se em posições complicadas. Quando uma moeda cai à sua frente, demora ainda uns segundos antes de mudar de posição em sinal de agradecimento. A assistência sorri, deliciada.

“Trabalhar na rua é belo. Como se diz?”, pergunta, numa tentativa de encontrar a palavra certa. “É bonito. Porque a vida é na rua.”

Francis nasceu em Madrid, mas toda a sua família é francesa. Viveu em Paris até aos 27 anos e foi nessa altura que, “por acaso”, se mudou para Bolonha, em Itália, onde teve vários trabalhos. “Cheguei a trabalhar como etnólogo e também fiz muito trabalho de voluntariado em associações culturais.” A ideia de trabalhar como estátua surgiu há dez anos, depois de ter visto alguém na rua a fazer o mesmo. Mas este mestre em etnologia, um ramo da antropologia, quer apostar também na carreira académica e já está a preparar um doutoramento.

Quem também nunca se esquece de pensar no futuro é Edivon, que, alguns dias por semana, carrega o céu às costas no início da Rua Augusta, junto ao Rossio. Edivon Messias anima as ruas lisboetas desde que deixou o Brasil em 2008, não só para “procurar uma vida melhor, mas também pela aventura”. É um homem-estátua com vários disfarces – cavaleiro medieval, soldado espartano, bombeiro -, mas muitas vezes prefere ser Atlas, o titã grego que Zeus condenou a sustentar o céu nos ombros para sempre. Mas é com os pés bem assentes na terra que Edivon fala sobre os seus planos. O que quer mesmo é ir para a faculdade estudar educação física: “Isto é uma coisa de momento, não dá futuro para ninguém. A gente tem de ver o amanhã também. Talvez eu veja as pessoas pedindo esmola e dormindo na rua e penso em mim. Eu não sei: amanhã posso estar aí também. Não julgo essas pessoas que estão na rua, mas eu estou tentar a juntar o meu pé de meia.”

Quando não está a trabalhar nas ruas, viaja por feiras em Portugal e Espanha e diz que o mais difícil deste trabalho “acaba por ser mesmo o preconceito”. “Nem todas as pessoas têm, mas existe. Eu já nem ligo. Alguns, poucos, chateiam. Jogam pedras. Gritam : ‘vai trabalhar!’. Não entendem. Mas eu nem levo isso a sério.”

Sério é o projecto que Evandro Cabral está desenvolver para apoiar crianças carenciadas. Este saxofonista de 38 anos só sai para tocar nas ruas da baixa lisboeta na época natalícia. Diz que o faz por gosto e porque foi nas ruas e no metro que começou a trabalhar quando chegou a Portugal, também ele vindo do Brasil, há dez anos. O Projecto Reciclo Orquestra, que este antigo músico da orquestra sinfónica de São Paulo está a lançar no bairro da Encarnação, é apoiado pela Junta de Freguesia de Santa Maria dos Olivais e relaciona-se com reciclagem de materiais para fazer instrumentos musicais. “Vamos dar formação musical a pessoas carenciadas, utilizando os instrumentos que eles próprios vão fazer. Flautas, tambores, enfim”, explica Evandro, que segura um instrumento musical a que chamou “cenourofone”. Ou, como diz a sua filha pequena, uma “saxocenoura”.

O verdadeiro saxofone dourado com o qual dá concertos está guardado na mala. Na rua, Evandro costuma tocar instrumentos que ele próprio fabrica a partir de legumes. Diz que com estes consegue chamar a atenção dos comerciantes do seu bairro e angariar mais apoios para o seu projecto.

Quem passa e vê Evandro a tocar ficava espantado. O som parece o de um instrumento de sopro normal, mas, afinal, sai de uma cenoura com furinhos onde está encaixado um funil de plástico. “Quando a cenoura começa a ficar estragada, tenho outra esperando no frigorífico”, diz Evandro, entre risos. Também tem flautas feitas com pepinos ou outros instrumentos feitos a partir de peras ou de mandioca.

O músico, que tem ainda um projecto de fado chamado Próxima Paragem, em que a voz da fadista é substituída pelo som do seu saxofone, confessa que já não toca nas ruas para ganhar a vida, mas porque é algo que lhe dá prazer.

É também essa a razão pela qual Nuno Lamego, de 35 anos, trabalha desde os 16 como artista de rua. Gosta daquilo que faz. Junto aos Armazéns do Chiado, acompanhado pela pequena Honey Badger, uma cadela que, tal como ele, nasceu em Moçambique, este “malabarista em part-time” vai mantendo no ar as chamadas massas de malabarismo. “Ou bolas, por vezes trago bolas e também faço malabarismo de contacto, explica Nuno enquanto tenta manter Honey Badger por perto. Mas a verdadeira paixão deste artista de rua é a joalharia.

“Monto uma bancada a partir de uma mala e faço joalharia ao vivo. Nunca vi mais ninguém a fazer isso por aqui. Quando não posso, por causa da polícia, faço malabarismo, que geralmente é um bocadinho mais tolerado.”

Queixando-se da dificuldade que os artistas enfrentam para conseguir licenças, Nuno lamenta não poder vender as suas peças à vontade, por ter “medo que levem o material”. Ainda assim, este “caçador de destroços”, nome do seu projecto de jóias, não desiste: sonha abrir uma loja. Por enquanto, a rua continua a ser o seu único palco.

[Reportagem publicada no Diário de Notícias a 18 de Dezembro de 2010]

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foolish consistency

Nunca gostei de passagens de ano. Pesa-me a ideia de felicidade obrigatória. Nos dias anteriores à contagem decrescente para um dia igual aos outros multiplicam-se os folhetos publicitários a festas cheias de brilho, champanhe e vestidos compridos. Fazem-se listas infindáveis de resoluções optimistas que ao fim da noite acabam invariavelmente arrumadas a um canto juntamente com as garrafas vazias. As expectativas são demasiado altas. Desencorajam-me.

O problema desta posição é que também nunca gostei de discursos lamuriosos que obviamente irritam todos os que têm a capacidade para realmente se divertirem em dias como este. Provavalmente são eles que estão certos.

Este ano comecei a pensar que também devia pelo menos fazer um esforço para gostar da data. Afinal de contas, também não gostava do Carnaval até há bem pouco tempo e mudei de ideias. Diz  Emerson: “a folish consistency is the hobgoblin of little minds.” Mudar de opinião é bom e recomenda-se.

Por isso, este ano até pensei na tal lista de resoluções optimistas e nessa história de entrar com o pé direito no ano novo, apesar de não saber bem qual o sítio exacto onde ele começa.

Ao fim da noite uma das taças de champanhe partiu-se. Decidi deitar fora a lista das resoluções. Para o ano tento outra vez.

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Zoom in, Zoom out (3)

- Olá. Bem-vindos! Trouxeram as vossas colheres?

- As nossas colheres?

- Sim, para comer a sopa precisam de colheres. O que é que fizeram às vossas? Venderam?

- É a primeira vez que estamos aqui. Desculpe. Não estamos a perceber.

- Não sabem que nos tempos medievais cada pessoa tem a sua própria colher?

- Desculpe?

- Ah, já percebi. Vocês também vêm do futuro.

[Talin, Estónia]

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Modernidade já fala árabe

Sheikha Mozah al-Missned do Qatar

É uma das três mulheres do Emir do Qatar, mas só ela tem direito a aparecer publicamente ao lado do marido. Membro da comissão que vai organizar o Mundial de futebol de 2022, Mozah é sinónimo de modernidade no mundo árabe

Quando em 2003 Mozah al-Missned apareceu ao lado do marido numa entrevista transmitida pela televisão estatal, o Qatar ficou em estado de choque. Nunca antes a mulher de um dos seus líderes tinha aparecido em público.

 Passaram sete anos. E se até aqui os mais distraídos não tinham ainda reparado em Sua Alteza Mozah, uma das mais mulheres mais influentes do mundo árabe, finalmente foram obrigados a fazê-lo quando há uma semana foi anunciado que será o seu pequeno país a organizar o Mundial de futebol em 2022.

Durante a cerimónia da FIFA em Zurique, sem dispensar a elegância que lhe tem valido rasgados elogios em todos os países por onde passa, Mozah foi o centro das atenções com o seu discurso de agradecimento.

A fortuna do marido, avaliada em dois mil milhões de dólares sem contar com um astronómico fundo soberano, permite-lhe encher o seu guarda-roupa de peças Chanel, Jean Paul Gaultier, Givenchy, Valentino e de colecções inteiras de sapatos de Christian Louboutin.

 À primeira vista, Mozah, uma das três mulheres do Emir Khalifa al- -Thani e mãe de sete filhos, poderia parecer só mais uma barbie árabe com jeito para esbanjar os petrodólares do marido. Mas a sua inteligência, aliada a um espírito de iniciativa incansável, têm ajudado a projectar o Qatar aos olhos do mundo como um país que aposta no desenvolvimento do sistema educativo, na saúde e na investigação científica.

A educação das jovens, pouco encorajada ou mesmo evitada em boa parte dos países árabes, é uma das principais preocupações da monarca. “Devemos ser leais às tradições islâmicas, insistindo na aplicação da igualdade garantida pela nossa religião e providenciando um ambiente próprio para que as jovens possam crescer e prosperar”, explicou em 2006 durante uma conferência em Doha, capital do Qatar, onde 70% dos estudantes universitários são mulheres. Ao contrário de outros países islâmicos, sobretudo no golfo Pérsico, no Qatar as mulheres são autorizadas a conduzir e a trabalhar fora de casa. Ainda assim, o regime autoritário do Emir continua a despertar preocupações entre organizações de defesa dos direitos humanos.

Com apenas 18 anos, antes de ter terminado a sua licenciatura em Sociologia, Mozah recebeu uma proposta de casamento: o herdeiro do trono estava interessado em ter uma segunda mulher e tinha sido ela a escolhida. Em 1977, a menina que nasceu na cidade de Al Khor, no Norte do país, recebeu o título de sheikha e durante anos permaneceu no anonimato. Após a sua primeira aparição pública, que muitos dizem ter sido uma jogada de mestre dos governantes do país, Mozah, que em 2007 foi nomeada pela revista Forbes como uma das mulheres mais influentes do mundo, começou rapidamente a transformar-se numa importante imagem de marca do país. Até aí, era a cadeia de televisão Al-Jazeera que desempenhava esse papel.

Embaixadora especial da UNESCO para a educação básica e superior, Mozah apoia inúmeros projectos educativos um pouco por todo o mundo e convenceu o marido a doar 15 milhões de dólares (11 milhões de euros) para a reconstrução de universidades no Iraque.

Para esta mulher de 51 anos, que tem conseguido aliar uma postura moderna ao respeito pelas tradições, a organização do Mundial é uma oportunidade única para todo o mundo árabe de corrigir “os mal-entendidos que prevalecem no Ocidente” sobre os países islâmicos.

[Publicado no Diário de Notícias a 11 de Dezembro de 2010]

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Impressões sonoras (15)

 

Florence and The Machine – You’ve Got The Love (unplugged)

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Pride and Prejudice (2005)

 

Elizabeth Bennet: And that put paid to it. I wonder who first discovered the power of poetry in driving away love?
Mr. Darcy: I thought that poetry was the food of love.
Elizabeth Bennet: Of a fine stout love, it may. But if it is only a vague inclination I’m convinced one poor sonnet will kill it stone dead
Mr. Darcy: So what do you recommend to encourage affection?
Elizabeth Bennet: Dancing. Even if one’s partner is barely tolerable.

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Intermitências da vida

– Louco. Não desças por aí. Ainda te matas.

– Deixa-me estar. Gosto de morrer de vez em quando.

– Sim? E costumas morrer muitas vezes, é?

– De vez em quando.

– E o que é que fazes enquanto estás morto?

– Vivo em paz.

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Impressões sonoras (14)

Gorillaz – Crystalized  (The xx cover)

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Zoom in, Zoom out (2)

Suomenlinna, Finland

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The Good Heart

Alguns dias antes da data marcada para a estreia em Manhattan, o vulcão cujo-nome-só-os-islandeses-conseguem-pronunciar decidiu entrar em erupção. Brian Cox, o actor que interpreta Jacques – um dono de bar arrogante e insuportável – ficou retido na Sérvia. Falhou a estreia, mas isso não impediu de elogiar ao telefone o trabalho de Paul Dano. O rapaz de 25 anos que veste a pele de Lucas, um sem abrigo que acaba a trabalhar para o insuportável supracitado, merece sem dúvida um aplauso pela prestação neste filme realizado por Dagur Kári. Há quem se apaixone por The Good Heart, mas também há quem odeie, boceje ou simplesmente adormeça a meio. Há quem diga que nunca chegará perto daquela que é considerada a obra-prima do islandês Kári – Nói the Albino (2003). Pois…que se lixe. Eu cá acho que é um daqueles que vale a pena.

Não é tanto pela história. Para os mais atentos, o desfecho é facilmente previsível desde o início. Portanto, não será pela curiosidade em saber o final. Um final decidido por um pato. Sim, um pato. E muito menos é pelo “será que ele fica com ela?”. Não, claro que não. É pelo brilhantismo dos actores. Pelas cores pálidas, hipnotizantes, que Kári sabe usar com tanta perícia em favor de um ambiente quase surrealista, mágico. Apetece emoldurar cada cena. Fazer pause e tentar perceber: será que Kári teve direito a ficar com todo o bom gosto cromático da indústria cinematográfica? Já para não falar da banda sonora. Onde é que eu ia? Ah, porque é que vale a pena. Acima de tudo pelos diálogos. Não sendo uma comédia, é capaz de fazer rir. Não sendo um filme de acção, também não é capaz de aborrecer. É quase como assistir a um debate aceso entre o bem (Lucas) e o mal (Jacques). E é ter medo quando achamos que o bem vai mesmo acabar por ceder.

Não entrei nos filmes de Kári através daquela que dizem ser a sua obra prima. Mas não correu mal. 

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Zoom in, Zoom out

Made in USSR. (Found in Finland.)

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(e)smart!

Print do 'site' The Book Depository

Someone from (e)spain bought Oxford A-Z- Of Better Spelling. Seems to me like a Bery (e)smart thing to do and that eBery (e)spaniard should do it.

(To all my spanish friends: yes yes, one day I’ll go to hell for this. ahah)

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inevitavelmente.

Hotel Window (1955) por Edward Hopper

Hotel Window (1955) por Edward Hopper

So we beat on, boats against the current, borne back ceaselessly into the past.

F. Scott Fitzgerald, “The Great Gatsby”

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Mudanças?

O wordpress.com acabou de me informar que o layout do meu blog vai ser automaticamente alterado para outro muito semelhante.

“Howdy! Your current theme, PressRow, will soon be retired and your site will be upgraded to a brand new theme.”

Suponho que não irão surgir estrelinhas intermitentes, neons virtuais fluorescentes ou anjos alados. Mas, portanto, se arruinarem o aspecto do Impressões,  posso processar alguém?

A ver vamos. Aguardo, expectante, meras alterações no ‘backoffice’.

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“O licor de Portugal”…

…em Talin.

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O regresso de ‘Rahmbo’ à cidade de Al capone

Rahm Emanuel com Obama

Até há pouco tempo, era o braço-direito de Obama. Agora, prepara-se para se candidatar à Câmara de Chicago, cidade onde nasceu

Um peixe morto embrulhado num jornal de Chicago. Foi este o presente de despedida que Rahm Emanuel recebeu quando na semana passada deixou a Casa Branca. Ninguém se surpreendeu com a brincadeira. Há uns anos, o antigo chefe de gabinete de Barack Obama e agora candidato a presidente da câmara de Chicago enviou, irritado, um peixe em decomposição a um analista de sondagens. Quem viu O Padrinho recordou uma das cenas do filme de Francis Ford Coppola e percebeu a intenção. Era uma ameaça. Neste caso, não de morte: ou a pessoa em questão saía do caminho de Rahm ou arriscava–se a ver a sua carreira a afundar-se no oceano.

A postura intimidatória deste democrata de 50 anos tem-lhe valido ao longo da carreira várias alcunhas pouco simpáticas, como “Pitbull” – diziam que era o cão de ataque de Barack Obama -, ou “Rahmbo”.

Quando em Janeiro de 2009 Emanuel se instalou no escritório reservado para o chefe de gabinete da Casa Branca, levou consigo uma lista telefónica pessoal com seis mil números que fez bloquear o sistema informático. Tratava quase todos os jornalistas por tu e fazia questão de manter boas relações com congressistas e donos de empresas.

Quem trabalha com ele sabe que tem de estar preparado para tudo. Para estar sob as ordens de uma pessoa que não consegue estar parada e usa vocabulário politicamente incorrecto em praticamente todas as frases. Caso o antigo braço direito de Obama suba ao poder em Chicago, a cidade onde nasceu, há uma dica de um antigo director do comité de campanha democrata (onde Emanuel trabalhou entre 2005 e 2007) que pode dar jeito a todos os que venham a integrar a sua equipa: “Desenvolver uma pele grossa, cancelar férias, casamentos e todos os compromissos pessoais. Aprender o que significa 25/8: estar disponível 25 horas por dia, oito dias por semana.”

Mas na cidade que ficará para sempre associada ao mafioso Al Capone, há quem tenha dúvidas da legitimidade da candidatura deste pai de três filhos. No estado do Illinois, ao qual Chicago pertence, a lei obriga a que os candidatos vivam há pelo menos um ano na cidade onde querem ser presidentes.

Emanuel, que até agora vivia em Washington, tem uma casa em Chicago, mas está alugada há dois anos e o inquilino recusa-se a sair por questões familiares. Mas este membro da ala centrista do Partido Democrata deverá resolver o problema, alegando que a sua intenção sempre foi manter em Chicago a sua residência permanente.

Como chefe de gabinete, Emanuel ocupava o segundo cargo mais importante na Casa Branca. Entre outras tarefas, estava encarregado de escolher e supervisionar todos os funcionários, de definir a agenda e aconselhar o Presidente ou ainda de negociar com o Congresso. No passado dia 1, quando Barack Obama anunciou o afastamento de Emanuel, definiu-o como o “solucionador a tempo inteiro de todos os problemas da Casa Branca”.

Filho de um pediatra judeu de Jerusalém e de uma psiquiatra americana, entrou na política como angariador de fundos para diversas campanhas dos democratas e tornou-se um dos mais importantes conselheiros de Bill Clinton, entre 1993 e 1999. “Ascensão meteórica” é uma expressão que dificilmente chegará para descrever o percurso político deste antigo bailarino. Emanuel, que teve aulas de ballet clássico até acabar o ensino secundário, serviu de inspiração para a criação do personagem Josh Lyman, vice-chefe de gabinete da Casa Branca na famosa série The West Wing (Os Homens do Presidente, em português). Mas a vida de Emanuel não foi a única a inspirar um filme. O seu irmão Ariel Emanuel, um agente milionário de estrelas de Hollywood, inspirou a criação de Ari Gold, personagem da série Entourage. Se ainda restassem dúvidas de que este antigo senador nasceu numa família incrivelmente bem-sucedida, bastaria acrescentar que o mais velho dos três irmãos, Ezekiel, é oncologista e um dos nomes sonantes da biotética norte-americana.

[Publicado a 8 de Outubro no Diário de Notícias]

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Impressões sonoras (13)

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